A viol�ncia � o la�o que une toda a Am�rica Latina nas obras de arte da feira Artbo

A viol�ncia � o la�o que une toda a Am�rica Latina nas obras de arte da feira Artbo

Uma bandeira branca se destaca na parede como um raio de luz, mas quem chega perto vê bordada ali a palavra "violência". Outro quadro de tecido branco, um retalho de feltro delicadíssimo, também deixa ver, em contraste sutil, essa mesma palavra. São peças quase iguais, mas feitas por artistas em países e épocas distintas. O primeiro trabalho, mostrado pela galeria Rolf Art, de Buenos Aires, é da argentina Cristina Piffer. O segundo, na Carmen Araujo Arte, de Caracas, é do venezuelano Pedro Terán. Juntos na feira Artbo, recém-encerrada em Bogotá, eles reagem àquilo que atravessa todo o território da América Latina, a carnificina que enlaça os países da região marcada por ditaduras, terremotos políticos, guerras a facções criminosas, invasões imperialistas. O que é ruim de viver, dizem, é bom de contar. E os artistas conceituais em peso nesta edição do evento colombiano, uma espécie de encruzilhada do continente em versão butique espremida entre os gigantes México, ao norte, e Brasil, ao sul, destrincham essa dor comum em trabalhos de alta voltagem política. De certa maneira, é uma seleção que vai na contramão da arte figurativa, muitas vezes só decorativa, que toma todos os espaços do circuito num momento em que colecionadores se voltam para o raso e o colorido avessos a obras mais complicadas em tempos de invasão americana na Venezuela, despropósitos de Javier Milei, na Argentina, e de um Brasil pegando fogo às vésperas de uma eleição que promete ser um massacre. Na Colômbia anfitriã, o presidente recém-eleito Abelardo de la Espriella vem suspendendo os diálogos previstos no histórico acordo de paz com líderes do tráfico num cenário de escalada da violência no país. MESMO QUE SEJA EU Nome em ascensão da arte conceitual colombiana, Ana María Montenegro Jaramillo dominou o espaço da galeria Visto Bueno (Plural), de Bogotá, com um neon em que diz que nada desaparece, como tende a ser em países fundados na violência colonial, depois fratricida e afins. Do outro lado da parede, estão suas declarações reconhecidas em cartório, nos principais tabeliães da capital de seu país, em que ela afirma, para todos os efeitos legais, que amanhã ela já não será mais a mesma pessoa que era no dia de hoje. HORIZONTE VERMELHO Também na Carmen Araujo Arte, que enfrentou uma operação milagrosa para fazer uma feira no exterior em plena intervenção na Venezuela, o artista Camilo Barboza-Soto mostra o registro nada sutil de uma performance em que arrasta um crânio de gesso de um lado a outro da ponte Simón Bolívar, que liga o seu país ao território colombiano. Outro trabalho do artista se apropria de velhos cartões-postais de Havana em que o horizonte é coberto por uma grande tarja vermelha, o comunismo cubano enquanto sangue derramado e mais violência. YES, ELES TÊM BANANAS Num trabalho que lembra as célebres pinturas de bananas —verdes, maduras e podres— de Antonio Henrique Amaral, uma sátira à ditadura brasileira, o colombiano François Bucher mostra, na galeria Gris, de Bogotá, imagens de bananas Chiquita em que a fruta vai apodrecendo quadro a quadro. É uma alusão ao célebre massacre das bananeiras, quando há quase um século uma greve de trabalhadores da United Fruit Company no país foi esmagada por forças policiais, resultando em milhares de mortos. Esse episódio, ainda atual, inspirou passagens do clássico "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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