A verdadeira caixa-preta das elei��es

A verdadeira caixa-preta das elei��es

Durante anos, uma das principais desinformações veiculadas por setores reacionários é a de que a urna eletrônica seria uma caixa-preta. A mentira aparece principalmente quando o resultado da disputa eleitoral não é favorável a alguns atores. A urna é auditada e aberta a escrutínio, mas, apesar disso, mais uma vez neste ano milhares de anúncios nas plataformas digitais voltaram a aparecer, colocando em dúvida a legitimidade das eleições. A mentira continua circulando, em desfavor da democracia e em favor de políticos oportunistas e da "economia da atenção" das plataformas. Há um mar de evidências de que as redes sociais não apenas favorecem a desinformação, mas também lucram, direta e indiretamente, com a crise informacional. De um lado, lucram com a captura da atenção dos usuários, alimentando-os com conteúdos inflamatórios e veiculando anúncios entre uma recomendação e outra. De outro, têm recebido das campanhas políticas montantes cada vez maiores de publicidade. Na disputa por atenção, as campanhas estão cada vez mais dependentes de aparição. Contudo, essas infraestruturas, que "permitem" que a participação política aconteça, são operadas por atores que estão longe da neutralidade. As eleições de 2026 trouxeram acusações consistentes de que as plataformas não trataram as candidaturas da mesma forma. Segundo a CTRL+Z, foram mais de mil casos de restrição a conteúdo político nas plataformas da Meta durante as eleições, majoritariamente atingindo o campo progressista, com justificativas pouco convincentes e sem garantia de devido processo aos usuários. Usuários também denunciaram a manipulação do sistema de buscas do Instagram para não permitir que o perfil de Lula fosse encontrado e obstrução da criação de materiais de campanha em favor do Partido dos Trabalhadores pela IA da Meta, entre outros. Nesse sentido, se existe uma caixa-preta no processo eleitoral brasileiro, são os sistemas de recomendação e moderação de conteúdo das plataformas. Embora tenham se tornado as principais mediadoras da comunicação política, ninguém de fora consegue saber exatamente como elas têm definido preços de anúncios, ou quais os critérios para a recomendação ou restrição de perfis e de conteúdos. O TSE estabeleceu R$ 1 milhão de multa diária caso a Meta não comprovasse tratamento igual às campanhas. Entretanto, não há como determinar se houve de fato dolo da empresa porque seus sistemas não são passíveis de auditoria no Brasil. As plataformas devem ser submetidas a regras semelhantes às que já se aplicam à propaganda em rádio e televisão, como limites ao impulsionamento e condições equitativas de acesso para todas as candidaturas. Durante a campanha, sistemas de recomendação e moderação devem passar por auditorias independentes, com acesso a dados pela Justiça Eleitoral e por pesquisadores —e com garantia de revisão humana antes de qualquer restrição a conteúdo político. Apesar de termos um Congresso bastante permeável ao lobby das big techs, é preciso que os parlamentares compreendam que, sem essas regras, suas candidaturas ficarão sob o jugo de métricas privadas e opacas, e os recursos de suas campanhas, cada vez mais comprometidos. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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