A transi��o energ�tica economicamente motivada

A transi��o energ�tica economicamente motivada

Daniel Yergin, um dos mais respeitados especialistas em energia do mundo, costuma dizer que a transição energética global é um processo mais lento do que em geral percebido. Ele argumenta que na década de 1990, os hidrocarbonetos —petróleo, gás natural e carvão— respondiam por aproximadamente 85% da matriz de energia primária global. Depois de três décadas e de trilhões de dólares investidos em tecnologias limpas, essa participação recuou para a faixa dos 80%. Segundo Yergin, o avanço vigoroso das fontes renováveis tem servido fundamentalmente para absorver o crescimento vegetativo da demanda energética global, e não para substituir significativamente a infraestrutura fóssil preexistente. Diante do atual rearranjo geopolítico internacional, é possível prever alguma modificação dessa tendência? A consolidação de posturas nacionalistas e isolacionistas na esteira da política externa dos Estados Unidos, somada aos severos choques de oferta gerados pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, alterou as prioridades das grandes potências. A urgência climática, outrora protagonista na agenda de países desenvolvidos, passou a competir diretamente com a inflação interna e a segurança fiscal. Como resultado, observa-se uma nítida retração na disposição de governos, indústrias e consumidores de arcar com o chamado "green premium" —o custo adicional embutido em produtos e insumos de baixa pegada de carbono. Em tempos de incerteza econômica e pressões inflacionárias, o pragmatismo financeiro tem se sobreposto ao idealismo ambiental. Contudo, a mesma turbulência geopolítica que ameaça os consensos multilaterais atua como um acelerador tecnológico em outras frentes. A vulnerabilidade e a fragmentação das cadeias globais de suprimento forçaram os estados a buscarem maior autossuficiência. Coincidentemente, esse movimento ocorre em um momento de acentuada deflação nos custos de fabricação de painéis solares e baterias de armazenamento. Nesse novo desenho, a opção pela geração renovável e pela eletrificação acelerada deixou de ser uma escolha puramente climática para se transformar em uma estratégia de segurança nacional. Mitigar a dependência de combustíveis fósseis importados virou sinônimo de blindagem econômica. A China consolidou-se como o maior expoente dessa estratégia, liderando a eletrificação massiva de suas frotas de transporte de passageiros e de carga não apenas por metas de emissão, mas para reduzir sua exposição estratégica ao petróleo estrangeiro e dominar as cadeias de valor industriais do século 21. Paradoxalmente, o enfraquecimento do multilateralismo e a erosão dos laços tradicionais de cooperação internacional podem acabar reconduzindo a humanidade à rota de redução dos gases de efeito estufa. Não por um esforço altruísta ou de uma governança global coordenada, mas sim por puro interesse econômico. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha O Brasil deve encontrar o seu próprio caminho. Primeiro, reformando o setor elétrico para eliminar subsídios e fazer com que os preços dos serviços de eletricidade voltem a corresponder aos respectivos custos. Segundo, contrastando cada projeto de eletrificação com a correspondente alternativa baseada no uso de biocombustíveis, que produzimos em larga escala. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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