A sobriedade n�o apaga o passado do alco�latra

A sobriedade n�o apaga o passado do alco�latra

Quando paramos de beber, não é fácil retomar amizades e até mesmo relações com parentes. Reconquistar a confiança de algumas pessoas leva um tempo, pois não é num minuto que elas esquecem as atrocidades que cometemos sob o efeito do álcool. Outro dia, conversando com um amigo, ele me disse que retomou tudo muito fácil. Trabalho, amigos; mas as filhas, não. Demorou até que elas voltassem a falar com ele e acreditar nele. Comigo não foi diferente. Eu tive que participar de muitas reuniões de Alcoólicos Anônimos para voltar a ter a confiança dos meus parentes e até de amigos. Alguns eu perdi, já contei aqui; outros, consegui recuperar. Não tem sido fácil. Depois de quinze anos mentindo, manipulando e bebendo horrores, é difícil voltar a ser vista como uma pessoa confiável. E tem uma coisa que a gente precisa entender quando para de beber: a nossa sobriedade não apaga automaticamente o passado. Para nós, pode parecer que tudo mudou de uma hora para outra. Afinal, decidimos parar, estamos nos esforçando, frequentando reuniões, tentando mudar. Mas, para quem conviveu conosco durante o alcoolismo, a história é outra. Essas pessoas carregam lembranças de promessas não cumpridas, de decepções, de situações constrangedoras e, muitas vezes, de muito sofrimento. A gente quer que elas enxerguem a pessoa que estamos tentando ser, mas elas ainda se lembram da pessoa que fomos. E não podemos esperar que esqueçam tudo só porque paramos de beber. A confiança não funciona assim. Ela não volta com uma promessa, com um pedido de desculpas ou com alguns dias de sobriedade. Ela precisa ser reconstruída, aos poucos, com atitudes. No começo, isso pode doer bastante. Queremos estar perto, participar da vida dos nossos sobrinhos, dos nossos parentes, reencontrar amigos. Queremos mostrar que mudamos. Só que, às vezes, a outra pessoa ainda não está pronta. E precisamos respeitar o tempo dela, por mais difícil que seja. Aprendi que ficar sóbria é muito mais do que não pôr álcool na boca. É aprender a assumir as consequências dos nossos atos, sem colocar a culpa na bebida, nos outros ou nas circunstâncias. É entender que fizemos estragos e que nem todos poderão ser reparados. Também é aceitar que algumas pessoas talvez nunca voltem, por mais que a gente se esforce. Mas isso não significa que não vale a pena continuar. Pelo contrário. Cada relação recuperada, cada conversa retomada, cada gesto de confiança que recebemos é uma conquista enorme. E, mesmo quando não conseguimos recuperar alguém, podemos aprender a não repetir os mesmos erros. Hoje, entendo que não basta dizer que mudei. Preciso viver de um jeito que demonstre essa mudança. Um dia de cada vez, com honestidade, responsabilidade e paciência. Porque a sobriedade nos devolve a possibilidade de reconstruir a vida, mas são as nossas atitudes que mostram às pessoas que elas podem voltar a confiar em nós. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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