A reforma do Itamaraty n�o come�a agora

A reforma do Itamaraty n�o come�a agora

A Folha acertou ao colocar em debate o futuro do Itamaraty. A reportagem "Se eleito, Flávio planeja implementar no Itamaraty reforma importada do governo Trump" (29/9) e o artigo "O Itamaraty não pode ter medo de mudar (1º/10), de Marcos Degaut, partem, por caminhos diferentes, de uma questão real: a diplomacia brasileira precisa se adaptar a um mundo que mudou profundamente. Nesse ponto, há menos divergência do que pode parecer. Os próprios diplomatas defendem há anos mudanças estruturais na carreira. O que talvez esteja faltando ao debate é reconhecer que essa discussão não começa na atual campanha eleitoral e tampouco precisa importar modelos estrangeiros. Em 2024, o governo federal reconheceu formalmente a necessidade de reestruturar a carreira diplomática. O acordo firmado entre a Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros e o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos abriu esse processo de negociação. Depois de sucessivas discussões e deliberações da categoria, apresentamos ao governo, em dezembro de 2025, uma proposta de reforma da Lei do Serviço Exterior. Há razões objetivas para isso. A carreira acumulou gargalos que restringem a mobilidade, reduzem a previsibilidade profissional e fazem diplomatas permanecerem por períodos excessivamente longos na mesma classe. Corrigir essas distorções significa também melhorar a gestão de uma carreira de Estado responsável por representar o Brasil, negociar acordos, abrir mercados, atrair investimentos, prestar assistência a brasileiros no exterior e atuar na defesa dos interesses nacionais. Essa agenda ganhou ainda mais importância porque a dimensão internacional está cada vez mais presente na vida dos brasileiros. Comércio, investimentos, clima, energia, inteligência artificial, minerais críticos, saúde, segurança e crime organizado atravessam fronteiras e afetam diretamente empregos, empresas, preços e oportunidades. O Brasil precisa, por isso, de um Itamaraty forte. Poucas instituições públicas reúnem presença internacional, memória acumulada, capacidade de negociação e um corpo profissional especializado comparáveis aos do Ministério das Relações Exteriores. Esse patrimônio tem valor concreto para a sociedade e precisa ser atualizado para continuar entregando resultados. A reforma da Lei do Serviço Exterior deve estar no centro desse esforço. Precisamos de uma carreira com maior mobilidade e previsibilidade, critérios transparentes de progressão, melhor aproveitamento dos quadros e incentivos adequados para o serviço em Brasília e no exterior. Outras questões fazem parte do mesmo problema. A remuneração perdeu posição relativa diante de outras carreiras de Estado. As condições de trabalho precisam acompanhar a ampliação das responsabilidades do ministério. Servir no exterior impõe custos e restrições aos servidores e às suas famílias. E uma rede diplomática extensa exige orçamento compatível com as tarefas que o Estado brasileiro lhe atribui. A discussão proposta pela Folha é, portanto, bem-vinda. O Itamaraty precisa mudar, e os diplomatas sabem disso. Mas essa reforma não começa agora. Há um diagnóstico, uma proposta apresentada pela categoria e uma negociação já aberta com o atual governo. Modernizar o Itamaraty é assegurar que uma instituição fundamental para a presença do Brasil no mundo continue capaz de entregar resultados concretos à sociedade brasileira. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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