'A Prisioneira', filme de Chantal Akerman, � excessivo e maravilhoso

'A Prisioneira', filme de Chantal Akerman, � excessivo e maravilhoso

Se há um filme proustiano capaz de nos reenviar à escrita de Marcel Proust, é esta adaptação de "A Prisioneira" feita por Chantal Akerman. E ela, justamente, não se pega na época de Proust e suas particularidades, mas naquilo que Proust pode transmitir em qualquer época. Ou seja, seu herói, Simon, é um homem contemporâneo e é Proust ao mesmo tempo: um escritor, um aristocrata, um boa vida, se se quiser, cuja obsessão consiste em controlar todos os movimentos de sua amada Aryane. Não os movimentos exteriores, não só esses pelo menos. Ele a persegue pelas ruas, pelos hotéis, pelos teatros. Mas o espaço físico que ele busca cobrir apenas representa a superfície do que almeja —saber inteiramente quem é essa mulher. E, queira ou não, saber tudo sobre ela , como pensa, o que pensa, implica uma dominação intensa e mais que intensa —sufocante. Me parece que Machado de Assis resumiu e resolveu essa situação em apenas um belo poema, "A Mosca Azul", texto em que ele foi melhor que Proust. E, pessoalmente, concordo com Borges, quando diz que, de Proust, se poderiam jogar fora páginas e páginas sem que nada de fundamental se altere. Esse é o paradoxo. "A Prisioneira" é ao mesmo tempo, excessivo e maravilhoso, genial e irritante. Para mim, muito pessoalmente, Proust é assim. Não sou um proustiano. Mas como Akerman também não é, não inteiramente, em todo caso, seu filme nos traz algo de Hitchcock. Algo, não, muito: ela sabe que faz neste filme o retrato de uma obsessão. E a obsessão é um grande tema hitchcockiano. Não por acaso, algumas cenas parecem nos jogar direto, de cabeça, em "Um Corpo que Cai", por vezes, em "Intriga Internacional". Mas ver "A Prisioneira" me remeteu também a "O Ano Passado em Marienbad", de Alain Resnais. Me fez ver, aliás, que também "Marienbad" é um filme hitchcockiano em tantos aspectos. Mas, voltando, a Ackerman: Simon não se conforma em apenas amar Aryane. Ele sabe que ela tem os momentos com suas amigas, longe dele. O que falam? O que conversam? O que desejam? Ele a segue por vezes; em outros momentos, ele a espera. Em Aryane existe algo de vago. Simon busca precisão. Como se seu trabalho de escritor dependesse disso. Mas seu trabalho é soterrado sob o amor, sob o amor obsessivo. Qualquer resposta vaga de Aryana, qualquer sorriso, qualquer gesto endereçado a outro (ou a outra, pois suas rivais imaginárias ou reais são sempre mulheres). Ackerman sabiamente nos traz para dentro da obsessão carcerária de Simon. Sim, porque ele se comporta como um carcereiro gentil: que abre a cela da prisão apenas para melhor descobrir o que quer a cativa. À medida que a trama corre e se intensifica, sabemos logo que um caminho como esse só pode levar à morte. Mas de quem? Como? Ackerman sabe construir tanto a mulher como dotada de um enigma intangível, de um ser que homem nenhum consegue penetrar, como o homem frágil, cuja paixão pela mulher parece se desviar para se tornar paixão pela própria obsessão que o consome. Evidentemente, "A Prisioneira" nos mostra o quanto foi insensata a decisão das pessoas que votaram na enquete da revista Sight and Sound, colocando-a num primeiro lugar, que não chegava a exaltar "Jeanne Dielmann", e, em vez disso, desmoralizava a própria votação. Claro que "Jeanne Dielmann" não é o melhor filme de todos os tempos. Aliás, não é nem de longe o melhor filme de Ackerman. "A Prisioneira", que como Proust nos irrita pela maneira excessiva como cerca a empreitada cada vez mais insana de Simon, é um filme belíssimo, de grande cineasta. Este filme de amor extremo e loucura idem rompe com o discurso ideológico e nos faz lembrar da imensa complexidade da alma humana. Além disso, ele vem a calhar numa época de homens com mais ou menos os mesmos problemas de Simon. Isto é, sujeitos que pretendem acaparar suas companheiras ou ex-companheiras, preferindo tirar da vida delas a vê-las abandonar a cela em que tentam aprisionar as suas vidas. Por isso também "A Prisioneira" é um filme admirável, porque didático. Nos mostra como tudo que pretende cercear o outro, ou outra, absorver sua fala e impedi-la de existir não é só imbecil —é também perigoso.

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