Há uma bizarra relação entre "De civilitate morum puerilium" ("Da civilidade dos costumes infantis", 1530), de Erasmo de Roterdã, e o comportamento recente de figura da alta magistratura brasileira. Na pequena ética que ensina às crianças como se conduzir em sociedade, Erasmo visibiliza regras relacionadas às transformações históricas: moderar os gestos, sentar-se à mesa, manter a higiene etc. Um marco importante na história da civilidade europeia: antes, comia-se farofa com a mão, cuspindo no prato. Algo em Erasmo, porém, viria destoar do bom tom moderno, assinalado pelo "Emílio" (1762), de Jean-Jacques Rousseau, texto fundamental da filosofia da educação. Em vez de etiqueta, Rousseau aborda o desenvolvimento harmônico do indivíduo, sem pressões civilizatórias. É, assim, desafinada a passagem em que Erasmo sugere ao jovem espertezas de como escapar ao pagamento pelos serviços sexuais de uma dama. Um aconselhamento que soa natural no seu tempo, mas incompatível com a moralidade moderna. Esse, o ponto de ligação entre a permissividade seiscentista e o que hoje é corrupção moral, tipificada no caso brasileiro. O foco incide sobre a notícia de que um magistrado (publicamente, adepto da pauta de costumes) se trancou num quarto com cinco mulheres. Até aí a conduta é só mais rebarbativa do que o famoso flagrante, décadas atrás, de um deputado de cuecas em sua casa. Cassado por isso, aliás. O elo com o passado está na aceitação presente do incentivo de Erasmo, safadíssimo, no latim "abi sine dominae solutione!", isto é, "vá embora sem pagar à dama". Infantilizada, a autoridade escafedeu-se, a lesada reclamou até ser quitada pelo Master Corruptor. Só uma teria "laborado" dentre as cinco, que pareciam simbolizar ("ubinam gentium!", "quem diria"?) o número regulamentar de uma turma suprema. Um símbolo operativo: também membro dessa turma, o magistrado sentiu-se à vontade para driblar a conta, modesta na fatura da corrupção. A opinião pública mostra-se acanhada nos comentários sobre os escândalos, seja o relativo à fraude do Banco Master, que ainda relega a responsabilidade por R$ 40,6 bilhões ao FGC, sejam os relativos à dissolução de costumes, pouco analisada. Ambos, porém, fazem par. Costumes morais referem-se a presunções de decência e indecência. É bandeira hipócrita da direita, de torpe tradição: o nazifascismo, dissoluto, fazia da dissolução de fachada um instrumento de denúncia da liberdade sexual, do feminismo e das vanguardas artísticas. Hoje, os grandes corruptores, cientes de que seu poder consiste em desligar-se dos sistemas, isto é, tornarem-se invisíveis aos mecanismos de controle, precisam controlar os circuitos legais. Daí a naziperversão, que tem duas faces: violência e devassidão exuberante. No todo, um poder fascista e pornológico: nas bacanais de Vorcaro, o poder orgástico às custas de todos é grife distintiva, como um rolex. As cinco do magistrado dão fé de seu estatuto fálico "distingué". Mas, data vênia, o bom senso pede a palavra para indagar se o cinismo vai se sobrepor à vergonha na instituição que o abriga. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A pornol�gica dos poderes
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