Por 164 votos contra 1 e 6 abstenções, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução em que recomenda que os mapas-múndi utilizem a projeção cartográfica Equal Earth, ou outra do tipo equivalente, e não a mais tradicional projeção Mercator. A Equal Earth reflete áreas continentais com mais fidelidade do que a Mercator, que amplia terras localizadas em altas latitudes. Os EUA foram o único país a votar contra a resolução, com o argumento de que ela promove uma agenda ideológica. O movimento anti-Mercator foi impulsionado em 2025 a partir de uma campanha da União Africana que obteve a adesão de outros países, com discurso anti-imperialista e anticolonialista. Recentemente, no Brasil, o IBGE lançou um mapa-múndi invertido para promover o Sul Global. Nos anos 1990, já havia ganhado força a chamada cartografia crítica, segundo a qual os mapas são expressões de poder. Ao longo da história, várias invasões territoriais foram precedidas por mapas que retratavam o objetivo da potência agressora. Ironicamente, Trump deu um exemplo disso nesta semana, ao divulgar um mapa em que EUA, México, Canadá, Groenlândia, Caribe, América Central e Islândia estão cobertos pela bandeira americana —o que causou uma onda de repúdio diplomático. O problema é que mapas são poder, mas também são ferramentas. A Mercator não é uma das mais usadas desde 1569 à toa. Ela é especialmente adequada à navegação. Além de preservar bem o desenho das costas, permite traçar uma linha de um ponto a outro e seguir em direção constante pela bússola por causa de suas linhas que cortam todos os meridianos sob o mesmo ângulo. Hoje a navegação não depende tanto de bússola e sextante. Mas daí não resulta que a Mercator seja inútil. Mesmo o Google Maps segue essa projeção, já que ela facilita o cálculo das coordenadas e a aplicação do zoom. Cartógrafos lidam com uma limitação imposta pela geometria. A impossibilidade de representar fielmente um objeto de três dimensões em duas faz com que a transferência cause distorções. A Equal Earth atenua o problema do tamanho relativo das massas continentais, satisfazendo militantes anti-imperialistas, mas distorce formas, distâncias e direções leste-oeste e norte-sul. Antes de responder qual mapa é melhor, é fundamental saber para que ele será usado. editoriais@grupofolha.com.br
A pol�tica dos mapas
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