A li��o que vem das montanhas

A li��o que vem das montanhas

Universidades são cada vez mais cobradas a mostrar a sua contribuição à sociedade. Entre o impacto e o discurso existe um abismo de informação. Muitas instituições acumulam projetos sociais, iniciativas ambientais, ações de inclusão e de desenvolvimento tecnológico, mas não conseguem apresentar adequadamente seus resultados. Boas intenções não bastam. A experiência recente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com a medição de seu impacto social e sustentável sugere hipótese interessante: a habilidade de expor os resultados não depende apenas de recursos financeiros ou de compromisso político. Ela depende também de boa governança. Com frequência, instituições de educação superior operam com dados fragmentados, estruturas descentralizadas e baixa coordenação institucional. O ponto de partida na UFMG foi relativamente simples: em primeiro lugar, tivemos de compreender como nossas atividades e estruturas dialogavam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda 2030 da ONU. O que veio em seguida revelou um fenômeno comum nas universidades públicas brasileiras: centenas de iniciativas relevantes existiam, mas permaneciam dispersas, pouco documentadas e frequentemente invisíveis para a própria instituição e a comunidade universitária. Ao mobilizarmos nossas agências acadêmicas e administrativas para identificar, validar e sistematizar evidências, a UFMG começou a construir algo mais importante do que um banco de dados: gerou uma nova capacidade de autoconhecimento institucional. Rapidamente, o processo produziu frutos. Em apenas três anos, a universidade passou a reportar evidências relacionadas à implementação de 17 ODS nos seus campi. No ranking de sustentabilidade da Times Higher Education de 2026, posicionou-se entre as 300 universidades mais bem avaliadas do mundo. Mais significativo: alcançou o top 100 em dois ODS (7 e 9). Por fim, foi identificada como a universidade mais bem colocada da América do Sul em impacto sustentável. A trajetória foi confirmada por outra avaliação independente. No QS Sustainability Rankings 2026, a UFMG saltou 470 posições em apenas um ano, passando do 786º para o 316º lugar global. Tornou-se a segunda melhor universidade federal brasileira e uma das seis melhores da América Latina segundo essa metodologia. Rankings não devem ser confundidos com qualidade intrínseca. Universidades existem para produzir conhecimento, formar pessoas e gerar benefícios públicos. Ainda assim, rankings podem funcionar como instrumentos de validação quando capturam transformações reais. No caso da UFMG, os resultados refletem políticas concretas. A instituição mantém um dos mais robustos sistemas de assistência estudantil do país, investe em inovação tecnológica, promove transferência de conhecimento, opera mecanismos de incubação de empresas e desenvolve iniciativas voltadas à eficiência energética, à gestão hídrica e à inclusão social. Mas talvez a principal lição seja outra. A experiência da UFMG sugere que governança institucional e de dados deve ser entendida como capacidade estratégica. Sem informação confiável, organizações não conseguem conhecer a si mesmas. Sem autoconhecimento, não conseguem planejar. Sem planejamento, dificilmente conseguem transformar a realidade. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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