A leitura no mundo digital e os resultados do Pisa

A leitura no mundo digital e os resultados do Pisa

O que significa saber ler e escrever? As habilidades que automaticamente ligamos a esses verbos diferem do significado que tinham na Grécia Antiga do século 8º a.C., nos primórdios do alfabeto, ou de quando a prensa de Gutenberg mecanizou a produção de livros, por volta do ano de 1450. E, sem dúvida, distanciam-se significativamente dos modos de consumo e produção de informações na era digital. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Com a internet, vivenciamos novos modos de leitura e escrita e é nesse contexto que os dados do Pisa 2025, recentemente divulgados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e amplamente noticiados na imprensa, precisam ser discutidos. O Pisa é um exame comparativo que procura medir a capacidade de estudantes de 15 anos de usar seus conhecimentos em matemática, ciências e leitura "para enfrentar desafios da vida real". Os resultados de leitura, em geral, mostram um quadro preocupante. Segundo a OCDE, de 2018 a 2025 houve piora nas habilidades particularmente relevantes em um ambiente informacional cada vez mais digital: avaliar informações, fazer conexões entre múltiplas fontes e pensar criticamente sobre as mensagens que consumimos. Ao mesmo tempo, a parcela de "leitores precipitados" quase dobrou no período considerado. No contexto do Pisa, esse termo refere-se aos estudantes que leem às pressas e dão respostas rápidas, mas incorretas, para as perguntas sobre a leitura. Em relação ao Brasil, o Pisa apontou que apenas 1% dos estudantes alcançaram excelência (nível 5 ou superior) em leitura. Nesse patamar, os adolescentes conseguem compreender textos extensos, lidar com conceitos abstratos ou contraintuitivos e distinguir fatos de opiniões com base em pistas implícitas relacionadas ao conteúdo ou à fonte da informação. A média da OCDE, de 6%, tampouco pode ser considerada alentadora. O exame deixa claro também a desigualdade de aprendizagem entre estudantes de cada nível socioeconômico. Considerando aqueles que fazem parte do quartil de renda mais baixa, 67% apresentaram desempenho baixo em leitura. Outras pesquisas sobre o hábito leitor da população reforçam o tamanho do problema que precisamos enfrentar: é cada vez mais comum consumir notícias a partir de vídeos de influenciadores ou de manchetes em redes sociais, sem acessar veículos jornalísticos profissionais ou conferir uma reportagem completa, por exemplo. Ou, na pressa e diante da tela pequena de um celular (dispositivo pelo qual a maioria dos estudantes vivencia a internet no país), muitos se contentam com a leitura de um título ou o resumo de uma busca gerado por inteligência artificial, sem se dedicar a uma análise mais detalhada do conteúdo disponível. Em uma sociedade em que nunca foi tão fácil produzir, acessar e compartilhar informação, saber ler deixou de significar apenas compreender o que está escrito. Significa também saber perguntar quem escreveu, com que evidências, para qual finalidade, em qual contexto e por que aquela informação chegou até nós. Preparar estudantes para esse novo mundo da leitura é condição para que possam participar dele de forma autônoma e consciente. É nessa direção que a educação digital e midiática precisa avançar.

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