Em 2022, Janete dos Santos Oliveira, professora concursada da rede pública de Imperatriz, no Maranhão, entrou num grupo de WhatsApp de educadores e viu uma mensagem sobre uma formação em educação financeira. Ela estava endividada, tinha vendido os móveis de casa para pagar o tratamento do filho após um traumatismo craniano e dependia de doação de cesta básica para se alimentar. Entrou na formação do IBS (Instituto Brasil Solidário) sem saber muito bem o que esperar. Três anos depois, Janete desenvolveu um projeto com alunos do ensino fundamental, levou-os até a Câmara Municipal e, em 2025, viu ser aprovada a Lei Ordinária 2076/2025, tornando a educação financeira política pública no município de Imperatriz. A história de uma professora em crise virou lei. Conto isso porque, em maio, o Senado aprovou na Comissão de Assuntos Econômicos a PNEEF (Política Nacional de Educação Empreendedora e Financeira), que propõe incorporar o tema à Lei de Diretrizes e Bases da Educação. É um avanço real e é também um teste. A educação financeira já consta como tema transversal obrigatório na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) desde 2017. O problema então nunca foi a norma, mas sim o que acontece entre a norma e a sala de aula. É o que mostram os dados que o Instituto Brasil Solidário levantou em parceria com a Plano CDE: sete em cada dez professores da rede pública brasileira afirmam não ter as ferramentas para ensinar o tema. Não por desinteresse, mas por falta de formação. A BNCC diz que o conteúdo precisa existir; não diz quem (ou como) se prepara o professor para ensiná-lo, com qual material, com que acompanhamento. A PNEEF deve avançar porque propõe exatamente isso: formação continuada para educadores, apoio técnico e financeiro da União a estados e municípios, parcerias com organizações sociais. Se implementada de verdade, resolve uma lacuna que a BNCC criou, mas não preencheu. O risco é o de sempre: transformar intenção em burocracia. Esse mesmo levantamento do IBS (Instituto Brasil Solidário) acompanhou, ao longo de 2025, mais de 2.300 educadores, coordenadores e diretores da rede pública municipal em formações de educação financeira. Os resultados foram medidos antes e depois. A confiança dos professores para ensinar o tema cresceu mais de 54 pontos percentuais. O domínio sobre planejamento financeiro avançou 55 pontos percentuais. Ao final, mais de 80% dos educadores declararam se sentir preparados para abordar o tema em sala de aula, ante a maioria que, no início, dizia não ter as ferramentas para isso. Esses números não são argumentos institucionais do IBS, mas sim evidências de que a mudança acontece quando há método, acompanhamento e prática, não apenas conteúdo. Quando Janete voltou da formação, não aplicou uma simples apostila. Aplicou o que tinha vivido. Foi porque passou pela transformação ela mesma que conseguiu transmitir algo real aos alunos. E foi porque os alunos entenderam algo real que chegaram à Câmara Municipal com um projeto que virou lei. Esse é o ciclo que qualquer política nacional precisará respeitar: o professor precisa ser tratado como sujeito da formação, não como receptor de mais uma diretriz. Formação que não parte da realidade de quem está na sala de aula não muda nada. Só muda o documento. O Instituto Brasil Solidário já atende mais de 2 milhões de alunos em mais de 800 municípios que participam de programas estruturados de educação financeira nas escolas públicas. São 25 anos de evidência sobre o que funciona. Sabemos que a transformação não começa no plano, começa quando o professor entende, pela própria experiência, o que significa reconhecer uma dívida, registrá-la e decidir o que fazer com ela. Para que a PNEEF não se torne mais uma sigla, algumas condições precisam estar presentes. A formação docente precisa ser tratada como processo contínuo, não como evento de capacitação, porque o professor não muda de comportamento em uma tarde. A lei precisará de organizações que já estão no território, com metodologia testada e redes municipais estabelecidas, já que o governo não tem capilaridade para fazer isso sozinho e a parceria com a sociedade civil não é concessão, é eficiência. E os resultados precisam ser medidos, não apenas se o conteúdo foi aplicado, mas se o professor se sente capaz, se o aluno mudou algo, se a escola incorporou o tema à rotina. Afinal, como eu sempre digo, política sem avaliação é intenção sem endereço. Janete não precisou esperar a PNEEF, ela precisou vivenciar a necessidade do tema em sua vida. Mas muitas Janetes pelo Brasil ainda esperam ter a mesma oportunidade que ela teve. A lei pode abrir esse caminho, desde que chegue com método e contextualização prática, não apenas com intenção. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A lei chegou, mas quem vai ensinar os professores?
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