Em 25 de julho, a convenção do PL exibiu um vídeo em que a inteligência artificial devolvia ao ex-presidente Jair Bolsonaro a voz e a imagem para pedir votos ao filho Flávio. O caso foi parar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), rendeu manchetes e virou símbolo de uma eleição supostamente sequestrada pelas máquinas. Falta responder à pergunta mais simples: quem mudou de voto por causa daquele vídeo? Quem já era bolsonarista seguiu sendo. Quem não era não se converteu diante de um avatar. Na véspera do primeiro turno, a resposta honesta à pergunta deste debate é "não". A inteligência artificial ocupou a campanha, mas não decidiu a escolha do eleitor. O que ela decidiu, até aqui, foi o tom da conversa sobre a eleição.Não se trata de otimismo, mas sim de evidência. Em 2024, o ano com mais eleições da história, o Alan Turing Institute, centro britânico de ciência de dados, acompanhou os pleitos com lupa. Na eleição geral do Reino Unido, encontrou apenas 16 casos virais confirmados de desinformação feita com IA; na França e no Parlamento Europeu somados, 11. Nenhuma prova de que algum resultado tenha sido alterado. O pesquisador Felix Simon, de Oxford, ajuda a entender por quê: o ecossistema digital já transbordava mentiras baratas muito antes dos geradores de imagem. O gargalo da desinformação nunca foi apenas produzir conteúdo falso e sim conquistar atenção e convencer quem não estava predisposto a acreditar nele. Volume não é efeito. O Observatório IA nas Eleições registrou 413 casos de uso político da tecnologia só na pré-campanha brasileira, a maioria deepfakes de políticos. O número impressiona e merece fiscalização. Mas, como constatou o próprio Turing, a exposição a esse tipo de material se concentra em quem já concorda com ele: reforça, não converte. Voto se decide por renda, emprego, rejeição, identidade e memória, e nada disso cabe num prompt. Os defensores do "sim" têm um argumento sério: experimentos publicados na Nature e na Science mostraram que conversas de poucos minutos com chatbots deslocaram a simpatia por candidatos mais do que anúncios tradicionais. É verdade; e é preocupante. Mas foram testes controlados, com exposição forçada; um mês depois, o efeito havia encolhido, embora parte dele persistisse, e as mudanças na intenção declarada de voto foram pequenas. Capacidade demonstrada em laboratório não é impacto medido na urna. Tampouco basta dizer que, em disputa apertada, qualquer empurrão decide: pela mesma lógica, o preço do café e a chuva no domingo também seriam decisivos. Quem afirma causa precisa prová-la. E o microdirecionamento? A IA de fato virou infraestrutura: segmenta anúncios, produz vídeos, testa slogans. Mas todas as campanhas competitivas dispõem das mesmas ferramentas. Uma arma que todos portam não desequilibra a disputa para lado nenhum. Há, sim, um risco real, e ele é o oposto do que se anuncia. O perigo não é o robô virar votos; é o eleitor passar a desconfiar de tudo, inclusive do que é verdadeiro. Quando qualquer gravação comprometedora pode ser descartada como "coisa de IA", ganha quem mente. O próprio Turing alerta para essa erosão da confiança —o pânico em torno da tecnologia só a alimenta. Atribuir os resultados deste domingo (4) a efeitos de uma máquina é confortável. Absolve o candidato derrotado, dispensa a análise das urnas e trata mais de 158 milhões de eleitores como marionetes. Não são. A inteligência que vai decidir esta eleição ainda é a natural, seja para o bem ou para o mal, seja para a alegria de alguns ou para a tristeza de outros. Observação: este artigo não foi criado com auxílio de modelos de IA. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
A intelig�ncia artificial influenciou de forma decisiva as escolhas dos eleitores? N�O
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