Existe uma confusão muito comum sobre o que realmente significa alcançar a independência financeira. Muita gente imagina que ela representa uma vida sem limites, em que é possível comprar tudo o que deseja, viajar quando quiser e nunca mais se preocupar com dinheiro. Na realidade, independência financeira é algo muito mais simples. Justamente por isso, muito mais alcançável. A história de Jorge ajuda a explicar por quê. A independência financeira acontece quando seu patrimônio é capaz de sustentar o padrão de vida da família, tornando a renda do trabalho uma escolha, não uma necessidade. Talvez por causa desse equívoco, muitas pessoas acreditam que a independência financeira seja um privilégio reservado apenas a empresários de sucesso ou profissionais com rendimentos extraordinários. Na prática, para a maioria das famílias, ela depende menos da renda e muito mais da disciplina. Jorge, nome fictício que utilizarei para preservar sua identidade, é um bom exemplo disso. Hoje ele tem 50 anos, é casado e tem um filho de 20 anos já na faculdade. Mas existe algo que o diferencia de muitas pessoas da mesma idade. Ele já tem a resposta para a questão que aflige muitos: o patrimônio construído ao longo da vida será suficiente para manter a família quando chegar a hora de deixar de trabalhar? Hoje, a renda anual líquida da família é de aproximadamente R$ 150 mil, o equivalente a cerca de R$ 12,5 mil por mês. Ou seja, nenhum dos dois ganha mais de R$ 10 mil mensais. O que já é uma boa renda, mas distante daquela normalmente associada à formação de grandes fortunas. Mais importante: essa não foi a renda que Jorge teve durante toda a vida. Como acontece com a maioria dos profissionais, sua remuneração aumentou gradualmente ao longo da carreira. Quando começou a investir, ainda aos 20 anos, sua renda era bem menor. Mesmo assim, adotou um hábito que nunca abandonou: separar uma parte do que ganhava para investir antes de elevar seu padrão de vida. À medida que sua carreira evoluiu, ele continuou fazendo o mesmo. Em vez de transformar integralmente cada aumento de renda em mais consumo, transformou uma parcela desse crescimento em patrimônio. O diferencial, portanto, não foi começar a investir quando passou a ganhar bem. Foi começar antes disso e permitir que três décadas de disciplina e juros compostos fizessem o restante do trabalho. Quando elaboramos seu planejamento, a pergunta não era se Jorge conseguiria sobreviver durante a aposentadoria. Era muito mais específica: o patrimônio seria suficiente para que ele continuasse vivendo como vive hoje? Conseguiria manter as despesas atuais, ou seja, moradia, transporte, lazer e continuar pagando um plano de saúde adequado sem depender da renda do trabalho? Para responder, projetamos as receitas, as despesas e a evolução do patrimônio até os 100 anos de idade. Consideramos uma rentabilidade real, acima da inflação, de 5% ao ano e a aposentadoria aos 65 anos. A partir desse momento, a renda do trabalho deixaria de existir e seria substituída pelos benefícios do INSS de Jorge e de sua esposa. Assumimos uma estimativa conservadora para o benefício. O restante da renda necessária para manter o padrão de vida da família passaria a ser complementado pelo patrimônio acumulado ao longo de três décadas. O resultado foi positivo. Mantidas essas premissas, Jorge está no caminho para alcançar justamente aquilo que tantas pessoas acreditam ser impossível. Seu patrimônio financeiro continuaria crescendo antes da aposentadoria e, depois, passaria a cumprir a função para a qual foi construído: complementar a renda da família e financiar seu padrão de vida durante toda a aposentadoria. Mesmo aos 95 anos, a projeção ainda indica aproximadamente R$ 1,26 milhão a valor de hoje em aplicações financeiras, recursos que continuariam sendo utilizados até o horizonte de 100 anos considerado no planejamento. Repare que o sucesso dessa história não está no tamanho do patrimônio. Está na eficiência com que ele foi construído. É comum imaginar que apenas quem ganha muito consegue acumular patrimônio. No caso de Jorge, o patrimônio foi sendo construído da mesma forma que sua carreira: pouco a pouco. A renda aumentou ao longo dos anos, mas o hábito de poupar permaneceu. Foi a combinação de crescimento profissional, disciplina para preservar parte dos aumentos de renda e tempo que permitiu transformar uma renda familiar confortável, mas longe de ser extraordinária, em independência financeira. Sempre que apresento um caso como esse, alguém pergunta qual foi o investimento responsável pelo resultado. A resposta costuma decepcionar. Não houve uma ação que multiplicou de preço, um fundo extraordinário ou uma aposta brilhante. O verdadeiro protagonista foi o tempo. Os primeiros aportes, feitos quando Jorge tinha pouco mais de 20 anos, provavelmente eram os menores de toda a sua vida. Ainda assim, foram justamente eles que permaneceram investidos por mais tempo e tiveram décadas para produzir juros compostos. Mais tarde, quando a renda cresceu, ele não abandonou esse hábito. Continuou investindo uma parte dos aumentos salariais, acelerando ainda mais a formação do patrimônio. Talvez por isso a independência financeira não pertença, necessariamente, a quem ganha mais. Ela costuma ser conquistada por quem consegue repetir boas decisões durante muitos anos, ou seja, para quem tem disciplina. Jorge não construiu apenas um patrimônio. Construiu a possibilidade de continuar trabalhando depois dos 65 anos porque deseja, e não porque pode precisar dessa renda. Essa é, talvez, a definição mais concreta de independência financeira. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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