O Brasil aprendeu a aplaudir a inclusão. Ainda falta aprender a sustentá-la. Celebramos a criança com deficiência que entra na escola, comemoramos pequenos avanços, compartilhamos histórias de superação. Mas há uma pergunta que parece estragar a festa: o que acontece quando essa criança cresce e seus pais envelhecem? O debate sobre inclusão parece ter uma preferência pela infância. Crianças sensibilizam. Adultos que necessitam de cuidados permanentes já não cabem tão facilmente nas campanhas emocionantes.É como se a deficiência tivesse prazo de validade. Ou, pior, como se o direito ao cuidado terminasse quando acabam as possibilidades de superação. Fala-se muito em preparar pessoas com deficiência para o mundo. Mas quem está preparando o mundo para recebê-las durante toda a vida? Nem toda pessoa terá independência plena. Algumas precisarão de apoio permanente para comer, tomar banho, comunicar-se ou simplesmente atravessar a rua. Isso não as torna menos cidadãs. Apenas evidencia uma verdade que insistimos em ignorar: autonomia e dignidade não são sinônimos de autossuficiência. Autonomia também é poder escolher a roupa, recusar uma atividade, manifestar uma preferência e ser ouvido, inclusive quando a comunicação não acontece pela fala. Apoiar alguém não deveria significar decidir tudo por essa pessoa. Cuidar também é respeitar.O Brasil reconhece direitos à moradia, à convivência comunitária e ao cuidado. Mas entre reconhecer e realizar existe um abismo onde milhares de famílias depositam suas maiores angústias. E não basta responder com instituições, vagas ou boas intenções. Pessoas não precisam apenas de um teto. Precisam de vínculos, escolhas, segurança, afeto e pertencimento. Uma vaga pode resolver uma emergência sem garantir uma vida. É preciso perguntar onde essa moradia fica, quem oferece o apoio, como se respeitam as escolhas e quais vínculos poderão continuar. O endereço muda; a pessoa não pode perder sua história na mudança. O problema é que seguimos tratando o futuro dessas pessoas como uma questão doméstica. Como se irmãos fossem herdeiros obrigatórios do cuidado. Como se mães fossem eternas. Como se amor fosse um serviço público disponível 24 horas por dia. Não é.Precisamos discutir moradias com apoio, redes comunitárias, cuidado de longa duração e planejamento para a vida adulta. Antes que a urgência substitua a escolha. Antes que a ausência dos pais determine o destino de alguém. Esse planejamento precisa começar com a pessoa e sua família, para conhecer alternativas e construir confiança. Esperar o cuidador adoecer ou morrer é transformar uma perda em desamparo. A inclusão não pode ser uma campanha bonita enquanto a família está presente e um problema invisível quando ela desaparece. Talvez esteja na hora de trocar a pergunta. Em vez de perguntar quem cuidará dessas pessoas quando seus pais morrerem, deveríamos perguntar: "Que tipo de sociedade exige que uma mãe seja imortal para garantir que seu filho tenha uma vida digna?" TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
A inclus�o tem prazo de validade?
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