A imensid�o da experi�ncia subjetiva

A imensid�o da experi�ncia subjetiva

Meus pés não sentem gosto. Seria absurdo pensar que poderiam sentir? Não tanto. Há borboletas e insetos que são capazes de sentir o gosto das coisas quando pousam sobre elas. Mais sortudos ainda são os bagres, línguas nadadoras, capazes de sentir sabor com o corpo inteiro, já que têm papilas gustativas espalhadas por toda a pele —não seria incrível se pudéssemos pular em uma piscina de chocolate e saboreá-lo dos pés a cabeça? Quando o assunto é visão, sou considerada uma mulher de posses humildes se comparada à vieira, que tem dezenas de olhos brilhantes ao redor da borda de sua concha. O camaleão poderia andar tranquilo pelas ruas à noite: consegue mirar para a frente e para trás com seus olhos independentes. O golfinho não enxerga tanto, mas sente muito. Com seu sonar consegue encontrar objetos enterrados, sem ter que apelar para a situação algo patética de dar pulos para São Longuinho. Algumas das informações acima foram retiradas de "Um mundo imenso — Como os sentidos dos animais revelam reinos ocultos à nossa volta", de Ed Yong. Além de me embasbacar com a variedade de formas que os animais têm de sentir o seu entorno, depois de ler o livro também percebi como é diversa a forma que os corpos sapiens têm se sentir o mundo, ainda que sejam da mesma espécie, tão parecidos entre si. O livro citado, por exemplo, estava em uma estante perto do teto, que eu nunca conseguiria alcançar, mesmo me esticando na ponta dos pés. Pedi para meu companheiro, que tem quase trinta centímetros a mais do que eu de altura, pegar a edição. Ele comentou que estava mesmo curioso: via a capa ali todos os dias, coisa que nunca acontecia comigo, sempre condenada a enxergar a nossa casa por um ângulo mais baixo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Baixo para mim, mas não para a dona Yolanda, a minha vizinha de 88 anos, que volta e meia aparece aqui e, de tão corcunda, mal enxerga as nossas prateleiras e os nossos rostos, mas, não à toa, vive elogiando a beleza do nosso piso de ladrilhos. Às vezes, a diferença entre dois sujeitos é totalmente invisível. Para os outros. Ou a olho nu. Meu pai, que sempre teve saúde, amor e dinheiro, sofria de uma depressão profunda, que o impediu de levantar da cama por muitos anos. Diferente do nosso jardineiro, que não tinha um rim, uma moeda de sobra ou uma namorada mas sorria vinte e quatro por sete, me fazendo pensar na diferença atroz entre um cérebro com mais ou menos serotonina ou o que quer que explique um deles viver no escuro e outro na luz. Diferente do jardineiro e do meu pai, que em outras coisas se assemelham, jamais saberei qual a sensação tirar um pedaço do meu corpo para fora da roupa e aliviar-me, ouvindo o barulho de uma parábola líquida caindo no chão. Da mesma forma que eles jamais conhecerão um tipo específico de cólica, que prenuncia um tipo específico de sangue. É como este corpo de mulher de 1m68 que avanço pelas ruas do meu bairro e às vezes encolho meus peitos ao ver um homem grande, que nunca se encolherá na minha passagem. Pelo contrário, que estufará para mim os seus bíceps, experimentando a vida a partir de outra compleição física. Uma experiência tão distante da minha, mas também próxima: eu, ele, a vieira; todos vivos num mesmo instante. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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