A Flock of Seagulls, sucesso oitentista, revive atmosfera da m�sica new wave no pa�s

A Flock of Seagulls, sucesso oitentista, revive atmosfera da m�sica new wave no pa�s

Há muita ironia nesta constatação. Mike Score, o homem conhecido pelo penteado mais esdrúxulo do rock, ostenta hoje a cabeça totalmente raspada. E vai exibir o visual maduro num show em São Paulo, nesta quarta-feira, no Cine Joia. Score formou a banda A Flock of Seagulls no final dos anos 1970, em Liverpool, no Reino Unido. O que nunca faltou ao grupo foi originalidade. Com muita concorrência na época, como Depeche Mode, The Human League e Soft Cell, Score e colegas desenvolveram uma identidade própria. O som era baseado em teclados atmosféricos, guitarras com efeitos, batidas eletrônicas e uma estética futurista. E, acima de tudo, havia o cabelo de Score —loiro, volumoso e penteado para cima e para a frente. Os ensaios iniciais foram feitos no salão de beleza no qual Score e o baixista Frank Maudsley trabalhavam como cabeleireiros. "Pois é, o meu corte de cabelo esquisito no A Flock of Seagulls foi inevitável", diz. Score afirma perseguir a pegada futurista. "Nossa grande influência era Bowie, o disco ‘Space Oddity’ e coisas parecidas. Para criar uma atmosfera. Musicalmente, a assinatura da banda vem do choque entre guitarras e sintetizadores, que brigam por espaço." O primeiro lançamento foi "Modern Love Is Automatic", de 1981, que teve a canção "Telecommunication" chamando a atenção de clubes de eletrônica e new wave. O álbum completo de estreia veio em 1982, e a canção "I Ran (So Far Away)" foi decisiva, chegando ao top dez da parada americana. Quando o corte de cabelo ficou tão badalado, as pessoas passaram a ver A Flock of Seagulls como uma banda fashion. O "frontman" acha que isso deixou o som que eles produziam em segundo plano. Hoje, sem parar de excursionar, a banda vê uma mistura de gerações na plateia. "Não somos apenas nostalgia. Somos persistentes, e nossa plateia também. Mas há muitos garotos, filhos ou netos dos fãs de 40 anos atrás. Eu me divirto vendo na plateia adolescentes que usam perucas de plástico reproduzindo o meu corte de cabelo." Score defende que nascer em Liverpool o fez ser obcecado pela música. "Obviamente, tudo em Liverpool é influenciado pelos Beatles. É a maior coisa que aconteceu para a cidade e não apenas na música", ele diz. "Lá existe a ideia de que você pode ser um músico e tocar sua vida para frente. Você vai a um bar, bebe um pouco, toca, vê que o pessoal na plateia também tem as suas próprias bandas. E assim você vai vivendo." Ele teve uma outra banda antes do A Flock of Seagulls, que não foi muito longe. Resolveu insistir, o que, segundo ele, mostrou que tinha entrado para a turma que estava levando as coisas de um jeito profissional. "Eu tentava ser um músico melhor, mas, para mim, era mais fácil criar minhas próprias canções do que tentar tocar as dos outros." Depois de lançar seu quinto álbum, em 1995, "The Light at the End of the World", Score seguiu com os shows, mudando constantemente a formação da banda, mas os discos seguintes só vieram mais de duas décadas depois, em gravações com orquestras —"Ascension", de 2018, e "String Theory", de 2021. A força da banda, porém, só retornou em 2024, com o elogiado álbum "Some Dreams". No Brasil, o público vai ver uma mistura de repertórios. "É a turnê de ‘Some Dreams’, mas também é a turnê do primeiro álbum, e não há nada que eu possa fazer a respeito", diz Score, rindo. "Os fãs querem ouvir aquelas músicas. O show tem um pouco de nostalgia, mas também aponta para o que estamos fazendo e para o futuro. Vamos mostrar umas duas músicas que o público nunca ouviu antes." Score tem uma teoria para justificar o eterno interesse das pessoas pelo pop da década de 1980. "Acho que é um dos últimos períodos em que gente de verdade escreveu as músicas. Hoje são músicas feitas por máquinas. A inteligência artificial fornece a música como você quiser, em menos de cinco minutos. Não sei se no futuro teremos tanta saudade disso." E do que Mike Score sente saudade? "O que mais estou ouvindo atualmente é o álbum ‘Manifesto’, do Roxy Music, um disco de 1979. Ouço também Beatles. Nada muito novo, não?"

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