A Flip vale a pena?

A Flip vale a pena?

A porta do elevador se abriu e Ruy Castro estava do outro lado. Logo depois, Alvaro Costa e Silva também chegou. Os dois começaram a conversar sobre um Rio de Janeiro antigo, habitado por personagens e costumes de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. Pouco tempo depois, a van da Folha chegou. Descemos e seguimos em direção a Paraty. Durante a viagem, Ruy e Alvaro continuaram contando casos divertidos de um outro Brasil. Foi assim que começou a minha segunda Flip. Ao chegarmos a Paraty, encontrei Sérgio Dávila, com seu jeito sempre gentil de conversar. "Fez boa viagem?", perguntou. Respondi que sim, embora ainda carregasse no corpo as consequências de uma jornada bem mais longa. Eu havia saído dos Estados Unidos, atravessado cerca de 17 horas de viagem e ainda estava com a cabeça um pouco pesada por causa do fuso horário. Logo depois, gravei uma participação para a GloboNews. Em seguida, fui buscar meus pais, que também acabavam de chegar a Paraty. Seria a primeira experiência deles na Flip. Meus pais são pessoas de origem simples. Durante muito tempo, meu trabalho circulou por ambientes que eles acompanhavam mais de longe. Em Paraty, poderiam observar mais de perto uma parte da vida que construí. No almoço da Folha, encontrei Zeca Camargo, que seria o responsável pela discotecagem na festa da Casa Folha. Brinquei dizendo que estava convocando todo mundo para ir ao evento por causa dele e que já havia colocado a expectativa lá no alto. Também pedi que incluísse um pouco de forró. Zeca, sempre divertido e de ótimo humor, ficou algum tempo pensando. Perto do fim do almoço, deu sua resposta: "Não vou colocar forró, não. Vai quebrar a sequência da playlist." Aceitei a derrota. No final, ele sacudiu a pista com sua energia vibrante e alto-astral. Um pouco antes, também tive ótimas conversas com Djamila Ribeiro e com outras pessoas que ajudam a compreender camadas mais profundas do país. Em eventos como a Flip, as mesas são apenas uma parte da experiência. Existe também a caminhada pelas ruas de pedra e a conversa que começa por acaso. Nesses momentos, grandes figuras deixam de ser apenas nomes em capas de livros ou fotografias de jornal. Tornam-se pessoas fazendo brincadeiras e compartilhando suas histórias. Foi por isso que fiz um esforço para participar novamente da Flip. Estou passando outra temporada na Universidade Stanford, onde tenho convivido com grandes pessoas comprometidas com a transformação da educação brasileira. A distância permite enxergar o país sob outros ângulos. Porém, ela também nos afasta do ritmo das contradições internas e daquilo que está sendo pensado nas ruas. Nada substitui a experiência de encontrar leitores e escritores interessados em discutir esse Brasil. A Flip ainda é muito elitista. Apesar disso, existe algo valioso na circulação criada durante esses dias. Eu interrompi por alguns dias minha rotina em Stanford porque precisava desse reencontro. Fui à Flip para participar de mesas, gravar entrevistas e voltei tendo recebido muito mais. Recebi histórias sobre um Rio que não conheci. Vi meus pais entrando, pela primeira vez, em uma parte do mundo profissional que construí. Reencontrei amigos e ouvi outros escritores. No fim, foi um ótimo banho de Brasil. O texto é uma homenagem à música "Palco", interpretada pelo Trio Nordestino. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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