A estrat�gia de Buenos Aires para seu centro hist�rico

A estrat�gia de Buenos Aires para seu centro hist�rico

Revitalizar centros históricos está na pauta do urbanismo brasileiro. Embora concentrem moradores e milhares de trabalhadores, nossos centros têm mais imóveis vagos que no resto da cidade, prédios inteiros abandonados, espaços públicos degradados e falta de investimentos. Buenos Aires enfrentou uma situação parecida, com deterioração de edifícios históricos, calçadas inadequadas e carros ocupando o espaço público. O golpe final foi a pandemia de Covid-19 somada à crise econômica argentina, com o fechamento de lojas e uma vacância comercial que chegou a 25%, muito acima da taxa já alta de 15% para a cidade como um todo. No Brasil, programas de requalificação dos centros priorizam incentivos ao setor privado para retrofit e a consolidação de lotes desocupados. Em São Paulo, além de isentar taxas, a prefeitura paga até 25% das obras de retrofit, com investimento total previsto de R$ 1 bilhão, enquanto as calçadas receberão cerca de R$ 126 milhões. Curitiba reembolsa até 25% do retrofit e até 50% para comércios térreos, num pacote de R$ 163 milhões em incentivos. Porto Alegre aprovou um "Plano Diretor do Centro" com 1,18 milhão de m² de potencial construtivo para novos empreendimentos, enquanto a requalificação de um trecho de 2,5 km de vias do centro levou quase quatro anos. Buenos Aires teve outro foco. Na Missão Urbanística do Caos Planejado, Juan Vacas, subsecretário de Paisagem Urbana, nos guiou pelas intervenções do "casco histórico" portenho. Em 2011 a Câmara Municipal declarou o centro uma área de proteção histórica, e em 2012 a cidade iniciou um ambicioso plano de requalificação. As calçadas foram padronizadas e refeitas, com travessias de pedestres niveladas nas principais ruas comerciais. Paralelepípedos históricos substituíram o asfalto, reduzindo a velocidade dos carros. "Bolardos" metálicos, barreiras no piso que restringem veículos e protegem pedestres, foram padronizados e instalados pelo centro. Estacionamentos em espaços públicos deram lugar a árvores, bancos e canteiros verdes com irrigação automatizada. Foram produzidas luminárias históricas padronizadas e, principalmente em ruas estreitas, instaladas lixeiras com contêineres subterrâneos, como em cidades europeias. Ônibus grandes e barulhentos tiveram suas rotas redesenhadas, e o centro ganhou micro-ônibus elétricos, com impacto mínimo na paisagem, no barulho e na circulação de pedestres. Só no casco histórico, de 2021 a 2023, foram quase 78 mil m² de espaços públicos requalificados em 47 quadras, com 21 cruzamentos nivelados e 156 novas árvores. Talvez a maior diferença em relação ao Brasil esteja no patrimônio histórico. Em Buenos Aires, há o entendimento de que as fachadas históricas formam o espaço público, e a sua degradação afeta a atratividade e a segurança. Assim, o município investe diretamente na recuperação de fachadas históricas, sejam elas públicas ou privadas, já tendo limpado e realizado manutenção em mais de 50 edifícios emblemáticos. Além disso, um programa gratuito de assessoria técnica oferece aos proprietários diagnósticos e diretrizes para a reforma de seus edifícios históricos. Após as intervenções, novos comércios e moradores começam a reocupar a região de forma espontânea. Enquanto isso, no Brasil, donos de imóveis tombados costumam receber pouco apoio público, arcando com os custos de uma preservação que beneficia todos. Apesar dos programas brasileiros também contemplarem a requalificação de espaços públicos, ações e investimentos normalmente priorizam a atividade imobiliária, com incentivos regulatórios, subsídios e isenções tributárias. O espaço público, responsabilidade direta da prefeitura, fica em segundo plano. A ordem no caso argentino é inversa: após o investimento no espaço público, que inexoravelmente deve ocorrer, o custo do incentivo ao mercado imobiliário deveria ser muito menor —ou sequer precisaria existir. Buenos Aires nos convida a pensar os centros históricos de outra forma e, quem sabe, o urbanismo do resto da cidade também LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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