A escritora que quer reimaginar a hist�ria brasileira com mulheres negras no centro da narrativa

A escritora que quer reimaginar a hist�ria brasileira com mulheres negras no centro da narrativa

"Quando eu estava escrevendo 'Mata Doce', eu queria trazer um novo imaginário para as histórias de mulheres negras velhas em comunidades rurais. Eu queria trazer imagens dessas mulheres se confortando uma na outra, se abraçando, alisando o cabelo uma da outra, plantando um roseiral." Reimaginar a história do Brasil, povoando-a com figuras positivas de pessoas negras. Na opinião da escritora baiana Luciany Aparecida esse é um exercício fundamental de reflexão para que a população afro-brasileira consiga transformar os traumas vividos ao longo de séculos de violência e opressão. Um estudo recente indica que mulheres negras são o grupo que mais consome livros no Brasil hoje. Dados da Câmara Brasileira do Livro sugerem que mulheres pretas e pardas de todas as classes sociais representam 49% dos consumidores de livros —e mulheres em geral são responsáveis por 61% desse consumo. Luciany Aparecida é escritora de uma nova geração de revelações femininas na literatura afro-brasileira possivelmente falando a esse público. Mas não apenas a ele. Seu romance de estreia, "Mata Doce", lançado em 2023, foi finalista do prêmio Jabuti em 2024 e ganhou o prestigioso Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2026, o livro foi incluído na lista de leituras obrigatórias para vestibulandos da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). "Mata Doce" tem como personagens centrais um casal composto por uma mulher cis e uma travesti e sua filha adotiva. As três vivem em um vilarejo no interior da Bahia na primeira metade do século 20. Para a escritora —uma mulher negra cuja esposa se define como pessoa não binária— alcançar um público mais amplo de leitores é a realização de um sonho antigo. Há alguns anos, a escritora disse em uma entrevista no YouTube que tinha escrito "Mata Doce" durante a pandemia, período marcado por abundantes discursos de ódio às mulheres, pessoas negras e LGBT. Seu objetivo ao escrever o livro, declarou, era dialogar com aqueles que queriam pessoas como ela mortas. Agora a escritora acaba de concluir seu novo romance, "Tinta da Bahia", cuja publicação está prevista para 2027 pela Editora Alfaguara. Em entrevista à BBC News Brasil, ela pondera: será que está conseguindo travar esse diálogo? A escritora também fala de temas centrais à sua literatura, como os problemas de saúde mental que afligem a população negra no Brasil. E compartilha um pouco da rica cultura que inspira seu trabalho. "As personagens velhas do meu livro fazem referência a uma cultura afro-indígena. E nessa cultura, no Brasil, uma mulher mais velha é muito respeitada. Ela tem, na história que ela conta e nos conselhos que ela dá, um diálogo direto com a ancestralidade", diz. Reimaginação Como forma de reimaginar a história brasileira, Luciany Aparecida povoa seus livros com personagens mulheres negras, mais velhas e de sexualidades diversas. Mas a vida no vilarejo de "Mata Doce" não é um idílio. Problemas de saúde mental são um tema marcante no livro —com personagens às voltas com suicídio e alcoolismo e lidando com traumas resultantes de estupro, desaparecimentos e assassinatos. Muitas doenças emocionais, traumas, comportamentos, estão ligadas à opressão vivida historicamente pela população negra no Brasil, segundo ela. "É um trauma passado culturalmente e também geneticamente. O alcoolismo é uma questão muito séria na população negra no Brasil. Um dos mecanismos de fazer com que a pessoa ficasse conformada com o escravismo era fazer com que essa pessoa ficasse viciada em álcool." Outro exemplo de reimaginação da história brasileira através de personagens negras e femininas está em seu novo livro, "Tinta da Bahia" —que já foi concluído e está sendo preparado para publicação. Na nova obra, que se passa na primeira metade do século 19, Aparecida quis criar uma heroína forte e resignada, que fosse um exemplo para todos. "Eu fiquei anos escrevendo e só consegui concluir esse livro quando entendi que a personagem, Chica D'Água, era uma heroína frágil, uma mulher que tinha problemas emocionais fortíssimos. Ela ouvia vozes, ela tinha uma dificuldade muito grande em se manter conectada ao que estava acontecendo no agora." "Essa crise dela está associada também com o trauma da travessia transatlântica, do sequestro. E claro que isso não se encerrou em uma geração." Aparecida lembra que na literatura brasileira, as mulheres negras sempre foram imaginadas pelos autores. "Aluísio Azevedo, em 'O Cortiço', imaginou o que é uma mulher negra pobre, Bertoleza é o nome da personagem [escrava explorada pelo personagem João Romão]. Monteiro Lobato, autor de 'Reinações de Narizinho', imaginou o que é uma mulher negra trabalhando como doméstica (tia Nastácia)." Várias artes no Brasil nos fazem imaginar o que é ser uma mulher negra, explica Aparecida. "Quando falo em reimaginar, estou falando em mobilizar essas imagens fixas." Agora com sua obra, Aparecida propõe criar novas imagens para aumentar o vocabulário do que pode ser uma mulher negra, ou do que pode ser uma mulher mais velha. Cultura rica da Bahia Mas nem tudo na literatura de Aparecida é imaginado. Ela busca também lançar luz sobre coisas que já existem, como a rica cultura da Bahia. Essa cultura é percebida com muita força em duas personagens mais velhas de "Mata Doce", as ialorixás Maximiliana dos Santos e Carminha. Figuras de imensa sabedoria e autoridade, elas trazem alento para as dores e angústias do povo do vilarejo e guiam espiritualmente a comunidade." Na cultura afro-indígena da Bahia, uma mulher negra e mais velha é muito respeitada, segundo a autora. "Como uma grande biblioteca, aquela pessoa que pode te oferecer um grande ensinamento sobre a vida", diz. "Se as mulheres mais jovens no meu entorno estavam ensinando sobre as coisas do meu viver, como vestir, como andar, como comer, ou coisas do corpo, cabia à minha avó me ensinar sobre as questões do mistério, da vida, da espiritualidade." Grande parte do público leitor brasileiro hoje é formado por mulheres negras, conforme mostrou o estudo encomendado pela Câmara Brasileira do Livro. E Luciany Aparecida se diz muito feliz de colocar as mulheres no centro de seu projeto literário. Mas quem ainda não conhece seu trabalho e a ouve falar de forma tão eloquente sobre questões femininas talvez fique com a impressão de que ela seria uma autora de literatura para mulheres e grupos LGBT. Será? "Mata Doce" faz referência a personagens masculinos históricos, como o intelectual, líder trabalhista, político e abolicionista negro Manuel Querino, que nasceu na Bahia e viveu de 1851 a 1923. Em busca da perspectiva de um homem cisgênero sobre o trabalho de Luciany Aparecida, a BBC News Brasil conversou com o escritor e tradutor David H Treece, ex-professor de cultura e literatura brasileiras no Kings College London. Treece comenta que não faltam visões masculinas na literatura brasileira e por isso é extremamente enriquecedor, para ele, ter a perspectiva feminina de forma tão intensa e genuína em "Mata Doce". "Aprendi muita coisa, lendo o romance, sobre o que talvez tenha significado, num Brasil profundamente patriarcal, ser uma mulher num contexto rural, de interior do país, e ter construído uma história própria, doméstica, familiar, à revelia do machismo, à revelia da violência masculina", diz. "E ter construído essa vida por via de relações, de afinidades, afeições e redes de relacionamento feminino. Isso é muito forte no livro." Mas para Treece, isso não impede que Aparecida retrate personagens masculinos de forma profunda. "Não são personagens monodimensionais, não são os malvados da história", diz. "Pelo contrário, os personagens masculinos têm complexidade e são retratados com muita paixão", opina. "São personagens que, longe de corresponderem a lugares comuns de representação masculina, são muito mais complexos. São homens que sofrem, que batalham com as suas historias familiares, especialmente maternas, e que por alguma outra via acham um jeito de lidar com essas dificuldades." O livro de Aparecida virou leitura obrigatória para o vestibular 2027 da Uesb, em provas que são realizadas nos municípios baianos de Jequié, Itapetinga e Vitória da Conquista. A própria Luciany, nascida no município de Jaguaquara, a cerca de 240 km dos câmpus da Uesb, prestou vestibular para história na universidade. Quando soube que a Uesb tinha incluído seu livro na lista de leituras para a prova desse ano, conta, ficou felicíssima. "Me trouxe a ideia de que o caminho da vida tem outros traçados e a gente acaba se encontrando com os lugares e as coisas, mesmo que de outro jeito, diferente do planejado." Aparecida se diz lisonjeada. Para ela, é importante que um livro que trata de questões como o amor entre mulheres, o cuidado com mulheres negras e o luto de pessoas negras seja discutido. Ter seu livro discutido em sala de aula também significa sair da "bolha" apenas dos leitores que têm simpatia pelas causas negra e LGBT. Lembro a Aparecida do comentário feito anos atrás em entrevista ao portal Estante Virtual, quando ela disse que tinha decidido escrever "Mata Doce" para dialogar com aqueles que queriam pessoas como ela mortas. Teria ela alcançado seu objetivo? Aparecida reflete por algum tempo, pega de surpresa pela pergunta. "Que difícil pensar isso", comenta. "É verdade." A escritora diz que de 2016 para cá temos vivido um período de muita violência, em que o mundo vem flertando com a extrema direita. "Eu já vinha muito magoada, assustada. Lembro que na eleição de 2018 [quando Jair Bolsonaro foi eleito], no dia da posse, tive dificuldade de acordar de manhã. Tinha medo de ser atacada na rua. Convivemos com pessoas que têm perspectivas de violência contra mulheres, contra pessoas negras e LGBTs, mas ter isso no lugar de quem está fazendo a gerência de uma nação, o discurso partir daí, tudo isso intensifica muito esses lugares de dor." Aparecida conta que pensou em criar um livro em que as personagens sejam exatamente o objeto do ódio dessas pessoas. Afinal, estaria "Mata Doce" dialogando com esses grupos? "Eu não sei te responder." Para ela, no entanto, a pergunta tem "uma inversão maravilhosa". "Eu quero acreditar que sim, que uma pessoa que estava defendendo a extrema direita em 2020 hoje, em 2026, tenha mudado de ideia. E quem sabe o percurso dessa pessoa tenha sido alterado por uma leitura literária." Este texto foi originalmente publicado aqui.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.