Esses tempos apontaram que uma colunista deste jornal estava usando IA. Não para consulta, como a maioria faz, mas para escrever seus artigos de opinião. A colunista admitiu a prática, sugerindo que não há problema em ditar o que se pensa para a IA e deixar que ela estruture o texto, dispensando o esforço manual, já que "conhecimento e sabedoria não são medidos pelo número de horas digitando." A colocação me fez refletir. Desde a juventude, todo o meu pensamento vem sendo construído em torno do número de horas que passo escrevendo e digitando. Não vim condenar —com atraso— a colunista. Se o objetivo de uma pessoa é transmitir uma ideia pronta, delegar a estruturação do texto para a IA funciona. Mas escrever não é isso. Escrever é arregaçar as mangas sem saber muito bem onde se vai chegar. É escolher um tema, uma imagem, uma ideia, um incômodo, uma sonoridade, enfim, um ponto de partida qualquer, e nele cravar a pá da escrita. A partir daí, revolver pensamentos, escavar memórias e mover a matéria, até que se encontre a pedra: bruta. Rudeza que a escrita também lapida. A escrita é, portanto, simultaneamente, processo e produto. Pá e pedra. Tanto que, ao sentar para escrever, pouquíssimos escritores sabem tudo o que vão narrar. É no processo que se descobre. Que se acha, tal qual pepita, uma ideia e uma estrutura que serão lapidadas até virar coluna, crônica, ensaio, conto ou romance; um pensamento que será burilado até virar verso ou aforismo. Algo que surpreende o autor pois nem ele mesmo sabia pensar exatamente assim. Em meu romance "Tudo pode ser roubado", só fui entender direito quem era o personagem Cícero quando o livro já estava quase pronto. Aquele Cícero mais complexo e bem acabado que se apresentava para mim nos últimos capítulos não existiria se não fosse a escrita de cada página até ali. O escritor vai conhecendo melhor o personagem à medida que avança no texto. E, neste caso, achei que valia a pena voltar e reescrevê-lo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Teve um tempo em que eu sofria cavando semanas a fio sem encontrar nada. Quem atenuou minha frustração foi uma letrista, Lulina, que me disse: não sofra, são as páginas jogadas fora que constroem as boas. Nesse dia entendi que cavar nunca é em vão. Cavar é conquistar musculatura. Manejar cada vez melhor a pá, revolver cada vez mais rápido o terreno mental e textual, num exercício que vai da ponta dos dedos aos axônios. Ter pulso para trabalhar cada palavra, se certificando de que não havia outra melhor para estar em seu lugar, porque é este grau de lapidação que distancia um texto brilhante de um razoável, um razoável de um medíocre. Claro que uma colunista pode estruturar um texto com IA via ditado, sem digitar nada. Ali está sua ideia, transmitida com fidelidade pela ferramenta. O leitor não perde tanto. Quem mais perde é a autora, que abre mão do processo. Antes de escrever esse texto eu não sabia onde iria chegar. Se tivesse ditado para a IA, teria dois ou três parágrafos. É por isso que a IA nunca vai substituir o escritor, porque sempre haverá quem queira cavar, e sempre haverá leitores que preferirão receber, em vez da pedra sintética, uma bauxita, ainda que lascada e imperfeita. E, talvez por isso, ainda mais bela. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A escrita � p� e pedra
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