Quando pensamos no avanço tecnológico, logo projetamos um mundo ideal: a inovação reduz custos, democratiza o consumo e amplia o acesso a bens e serviços. No entanto, os efeitos da transformação tecnológica sobre o mercado de trabalho são mais complexos. Joseph Schumpeter já havia mostrado que o capitalismo se transforma continuamente por meio da inovação, em um processo de destruição criadora. O problema é que os benefícios dessa transformação não são distribuídos de maneira uniforme. Como apontam os economistas Daron Acemoglu e Simon Johnson, premiados com o Nobel de Economia, o progresso tecnológico pode ampliar desigualdades quando instituições e políticas públicas não conseguem garantir que seus ganhos sejam amplamente compartilhados. No Brasil, essa questão assume contornos ainda mais complexos. O nó central muitas vezes não está na falta de qualificação do indivíduo, mas nas barreiras estruturais de acesso. O mercado de trabalho esconde uma lógica que vai além da qualificação profissional. Existe uma barreira invisível formada pela localização, origem social, redes de relacionamento e acesso a determinados ambientes profissionais. Vagas altamente qualificadas em tecnologia e no setor corporativo podem ser disputadas, mas o currículo nem sempre é o único elemento determinante. O jovem da periferia pode possuir diploma, curso técnico e capacidade profissional, mas essas credenciais podem não ser suficientes para garantir que seu currículo seja avaliado em condições de igualdade. Essa lacuna entre qualificação e oportunidade contribui para perpetuar a baixa mobilidade social. Jovens que poderiam ocupar postos de maior produtividade permanecem confinados às atividades de menor remuneração, não necessariamente por falta de competência, mas porque não conseguiram atravessar as barreiras de entrada existentes no mercado. Romper esse ciclo exige políticas públicas que ultrapassem a formação técnica tradicional. O Estado precisa atuar como construtor de pontes entre os sistemas públicos de ensino, especialmente nas periferias, e os setores mais dinâmicos da economia. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Parcerias entre instituições de ensino e empresas de tecnologia, programas de inserção profissional e processos seletivos que reduzam vieses relacionados à origem social podem ampliar o acesso às oportunidades. Não se trata de substituir o mérito, mas de permitir que ele possa efetivamente ser reconhecido. Uma sociedade que investe na formação de seus jovens, mas não cria mecanismos para conectá-los às oportunidades existentes, desperdiça parte importante do próprio investimento em educação. No poema "Tabacaria", Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escreve sobre abrir a janela para o mistério do mundo exterior e encontrar, diante dela, o muro do quintal. Para o jovem qualificado da periferia, a educação e a tecnologia representam essa janela promissora. Sem redes de acesso, entretanto, o mercado transforma a janela em um muro. Em uma economia cada vez mais dependente de conhecimento, deixar talentos fora das oportunidades significa desperdiçar um dos ativos mais valiosos do país: o capital humano. O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Josué Coimbra foi "Por aí", de Bárbara Eugênia". LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A engrenagem oculta da desigualdade
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