A partir do dia 26 de outubro, uma incerteza deve desaparecer. Mas outra talvez ainda mais importante começa a ser precificada. Até o fim do segundo turno da eleição, o mercado tentava descobrir quem governaria. A partir dali, precisa descobrir como o vencedor governará. Resolvi testar se essa mudança de incerteza deixou alguma marca no comportamento de nossa Bolsa no passado. Para isso, observei aproximadamente os cinco meses entre o resultado da eleição, no fim de outubro, e o último pregão de março do ano seguinte. Dividi esse período em duas partes. A primeira compreende novembro e dezembro, quando o presidente eleito anuncia nomes, negocia apoio e começa a revelar suas prioridades. A segunda vai de janeiro a março, quando o governo toma posse e decisões começam a substituir promessas. A primeira descoberta aparece ainda antes da posse. Desde o Plano Real, excluído 1998, novembro e dezembro dos anos eleitorais produziram retorno médio praticamente nulo para o Ibovespa. Nos demais anos, esses dois meses foram historicamente muito mais favoráveis. Portanto, o tradicional bom desempenho do fim do ano praticamente desapareceu quando houve eleição presidencial. Isso não prova que a eleição seja a causa, mas mostra que há algo diferente nesses períodos. O segundo ato começa em janeiro. Para separar melhor o que poderia ser um fenômeno brasileiro de movimentos internacionais, concentrei essa comparação no período em que podemos confrontar o Ibovespa com o EEM, ETF que acompanha ações de mercados emergentes. Nos primeiros trimestres posteriores às eleições, o Ibovespa avançou, em média, 1,1%, ante 2,4% nos demais primeiros trimestres. Mais curioso é que a frequência de altas praticamente não mudou: 60% depois das eleições contra 59% nos outros anos. Eleição Nov–Dez Jan–Mar (ano seguinte) Nov–Mar 2002 10,80% 0,10% 10,90% 2006 13,30% 3,00% 16,70% 2010 -1,90% -1,00% -2,80% 2014 -8,40% 2,40% -6,20% 2018 0,60% 8,50% 9,20% 2022 -5,20% -7,40% -12,20% Média 1,50% 0,90% 2,60% A eleição, portanto, na média, não parece ter mudado a probabilidade de a Bolsa cair ou mesmo de subir. A descoberta mais interessante surge quando olhamos para o desempenho relativo. Em primeiros trimestres comuns, o Brasil superou os emergentes em aproximadamente 1,3 ponto percentual. Nos trimestres posteriores às eleições, ficou cerca de 3 pontos atrás. Uma inversão superior a 4 pontos percentuais. As duas partes contam juntas uma história melhor do que isoladamente. Em novembro e dezembro, o mercado conhece o vencedor, mas ainda tenta imaginar seu governo. Nomes para ministérios, primeiras declarações, negociações no Congresso e sinalizações econômicas são transformados em preços. De janeiro a março, começa outra etapa: o governo imaginado passa a ser confrontado com o governo observado. Seria tentador transformar esses números em uma regra para vender Bolsa depois das eleições. Mas seria também um erro. Temos poucos episódios comparáveis e um deles pesa bastante. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados No primeiro trimestre de 2023, por exemplo, o Ibovespa caiu cerca de 7,4%, enquanto os emergentes avançaram aproximadamente 4%. Mais de 11 pontos percentuais de diferença. Sem esse episódio, apenas como teste de sensibilidade, boa parte da aparente desvantagem brasileira após a posse desaparece. Essa ressalva talvez ensine mais sobre investimentos do que a própria média. Séries históricas são excelentes para desafiar nossas convicções, mas perigosas quando utilizadas para fabricar certezas. Uma coincidência que ocorreu algumas vezes não se transforma em lei apenas porque calculamos sua média. O que os números permitem dizer é mais sutil. Não encontramos evidência suficiente de que eleições façam a Bolsa simplesmente cair. Encontramos, porém, sinais de que o comportamento do mercado brasileiro muda nesse intervalo entre a escolha do presidente e os primeiros meses de governo. Primeiro, desaparece parte da força normalmente observada no fim do ano. Depois, o Brasil tende a perder desempenho relativo para outros emergentes, embora poucas observações impeçam uma conclusão definitiva. Talvez porque o resultado da urna responda apenas à primeira pergunta. No domingo descobrimos quem venceu. Nos meses seguintes descobrimos política fiscal, equipe econômica, prioridades, reformas e como o novo governo pretende lidar com as contas públicas. Primeiro, o mercado precifica o governo imaginado. Depois, começa a precificar o governo observado. A eleição termina no fim de outubro. Para o investidor, porém, talvez sejam os cinco meses seguintes que contem a parte mais interessante da história. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A elei��o acaba em outubro; o que costuma acontecer com a Bolsa depois?
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