Para responder "sim" ou "não" à pergunta proposta, é preciso, em primeiro lugar, definir o que é o bolsonarismo para além de uma grande dose de falta de bom senso: trata-se de um movimento heterogêneo que se formou a partir de 2018 em torno de Jair Bolsonaro, mesclando conservadorismo cristão, autoritarismo militar, liberalismo econômico, anticomunismo e antipetismo. Esses temas e valores são bastante utilizados na comunicação e, eventualmente, estão presentes em algumas iniciativas legislativas. As evidências de que a direita brasileira precisa abandonar o bolsonarismo para voltar ao poder derivam das últimas três eleições presidenciais.Em 2018, Jair Bolsonaro venceu proferindo os maiores absurdos possíveis, tais como dizer que negros deveriam ser pesados "em arrobas" e que iria "fuzilar a petralhada". A lista de mensagens dessa natureza poderia ocupar toda esta página e, mesmo assim, ele venceu. Isso aconteceu por causa do cenário: em 2018, "o sistema" tinha ruído, as imagens de PT, PSDB e MDB estavam na lona, e Jair representava a liderança forte que iria nos salvar de uma crise sem precedentes. Passados quatro anos, o mesmo Jair já era parte do "sistema", disputava a reeleição e, por isso, não pôde, durante a campanha, continuar se comunicando de maneira tão extremada. Suas ações e seu discurso foram bastante diferentes: teve que defender seu governo, deu um aumento inédito e fora de esquadro para o Bolsa Família e já não ensinou uma criança a fazer o gesto da arminha —tampouco disse que mataria os petistas. Todas essas mudanças já eram uma admissão tácita de que, em condições normais, sem o "sistema" em ruínas, o bolsonarismo não manteria a direita no poder —e não manteve: ele foi derrotado. Em 2026, a campanha de Flávio foi menos bolsonarista ainda: não foi visto andando cercado de militares, mas sim de políticos tradicionais e do centrão; não se falou que "a nossa bandeira jamais será vermelha" nem se prometeu eliminar o PT. Algumas afirmações bolsonaristas —fora do bom senso—, como "reformar a Constituição para redemocratizar o país", foram rapidamente emendadas e corrigidas. Toda a campanha eleitoral de Flávio, quando comparada às campanhas de seu pai, foi uma clara admissão de que era necessário ser menos bolsonarista para vencer. Entretanto, o sobrenome dele é Bolsonaro. A imagem de um político é um petroleiro, não um jet ski. Portanto, uma eleição não é suficiente para mudá-la de direção. Flávio foi derrotado pela rejeição ao bolsonarismo. O contrafactual não existe: por isso, nunca saberemos ao certo, mas é razoável imaginar que, se o candidato do PL tivesse sido Tarcísio de Freitas, o destino de Lula teria sido outro. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, é inteligente e consegue ler o recado das urnas. Sabe que as manifestações inéditas da campanha de Lula no segundo turno e o crescimento exponencial da mobilização digital petista só foram possíveis graças à rejeição e ao medo da volta de um Bolsonaro à Presidência, sinalizados pelo resultado do primeiro turno. Simples assim. Ademais, se o bolsonarismo de fato viabilizasse o retorno da direita ao poder, os deputados federais eleitos pelo PL não seriam, em sua maioria, figuras egressas dos partidos do centrão, como mostram diversas análises já realizadas após as eleições. A maioria do eleitorado já quis, inadvertidamente, o bolsonarismo. Isso foi em 2018, quando o "sistema" estava em frangalhos. Em tempos normais, imagem, discurso e agenda que ficam distantes do senso comum não funcionam em eleições majoritárias. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento
A direta precisa abandonar o bolsonarismo para voltar ao poder? SIM
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