A desenvoltura criminosa dos Vorcaros

A desenvoltura criminosa dos Vorcaros

A Polícia Federal prendeu na quinta-feira (14) Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. Ele é apontado como operador financeiro do grupo de jagunços conhecido como "A Turma", usado pelo dono do Banco Master para intimidar jornalistas e roubar informações sigilosas. A ação da PF ocorreu um dia depois de serem divulgadas as conversas estarrecedoras entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, nas quais o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) cobra dinheiro e mostra inequívoca intimidade com o fraudador-mor da República. O que surpreende na ação da PF são os fatos que levaram à prisão de Henrique Vorcaro. De acordo com André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal responsável por assinar o mandado, as solicitações de serviços ilícitos continuaram mesmo após as primeiras fases da Operação Compliance Zero. Em outras palavras, segundo as investigações, a atuação criminosa do pai prosseguiu com naturalidade mesmo depois que o filho foi parar atrás das grades, onde se encontra ainda hoje. Daí o espanto: é como se o cerco policial não pudesse lhe botar medo. Não custa lembrar que à tal "A Turma" cabia espionar rivais do ex-banqueiro e perpetrar ameaças contra quem quer que fosse. Mensagens apreendidas pela polícia revelaram, por exemplo, que o grupo discutiu, literalmente, "quebrar todos os dentes" do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. Tamanha desenvoltura nessa prática mafiosa talvez se explique pela certeza da impunidade. Ao que tudo indica, dinheiro do Banco Master —oriundo de fraude que veio a onerar a sociedade— serviu para comprar influência política e judicial, seja para expansão dos negócios, seja para fins de proteção em caso de investigações policiais. Já se sabia dos contratos escandalosos de Vorcaro com familiares dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do STF. Agora, a operação mais recente iluminou outros tentáculos da organização, que alcançaram pelo menos uma delegada da PF, um agente da instituição e dois policiais federais aposentados. A prisão de Henrique Vorcaro, quando analisada por esse prisma, representa uma boa notícia. Ela constitui sinal de que os braços investigativos do Estado estão dispostos a avançar mesmo sobre quem se julgava intocável. Outro indício nessa direção é a postura do ministro André Mendonça, do Supremo, diante da esperada delação premiada de Daniel Vorcaro. O magistrado, segundo se noticia, parece disposto a rejeitar a colaboração enquanto nela houver omissões destinadas a proteger aliados. São avanços, sem dúvida, e a sociedade deve ficar atenta para combater possíveis retrocessos —um risco que aumenta com a teia de envolvidos, da esquerda à direita, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, nos três níveis de governo. O Brasil precisa mostrar para essa corja que o crime não compensa. editoriais@grupofolha.com.br

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