Domingo, 4 de outubro. Acordei às 5h e, às 7h15, saí de casa para votar. Às 7h22, já estava na fila. Cinco minutos depois, uma moça perguntou: "Quem quer acompanhar a zerésima?". "Eu quero!", respondi, levantando a mão. Subi as escadas em direção à minha seção. Às 7h34, acompanhei a emissão da zerésima, que comprova que não havia votos registrados na urna antes do início da votação. Exatamente às 8h, fui a primeira a votar na minha seção. Fiquei muito emocionada, sentindo todo o valor que o meu voto tem para construir e fortalecer a democracia no Brasil. Apesar de todo esse clima de ódio, violência e polarização, continuo sendo "meio Poliana". E você? Foi esse o relato que gravei em vídeo, 15 minutos após votar, para as redes sociais da Folha. Com o título "Como não perder a ternura em tempos de cólera", o vídeo foi postado no Instagram às 7h do dia 6 de outubro. Li o primeiro comentário, de um homem: "Mirian Goldenberg acordar tão cedo, ser a primeira a votar em quem perpetua a miséria e ignorância. Antropóloga da federal, chega de apoiar bandidos sanguessugas". Li o segundo comentário, de outro homem: "Mirian Goldenberg, eu, 70 anos, enquanto o pinguço estiver por aí, vou votar, nem que seja na cadeira de rodas, bengala, andador..." E o terceiro, de uma mulher: "Petista quando não está roubando, está mentindo". Parei de ler os comentários. Não aguentei a onda de hostilidade por expressar minha emoção ao acompanhar a zerésima e ser a primeira a votar. Minha angústia ficou maior quando uma amiga me contou o que aconteceu depois que ela enviou para o grupo do WhatsApp da família uma frase de Simone de Beauvoir: "Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados." O cunhado, que votou de cabo a rabo na extrema direita, escreveu o seguinte comentário: "A Simone de Beauvoir comia criancinha. Ela era uma feminista ninfomaníaca". "Meu cunhado grita para todo mundo ouvir que a ditadura militar vai voltar e acabar com os comunistas, esquerdistas, feministas. O pior de tudo é que o pai dele morreu de Covid-19, mas ele, que nunca tomou vacina, grita que é mentira que 716 mil brasileiros morreram durante a pandemia. Dei um vestido vermelho de presente para minha mãe, no seu aniversário de 91 anos, e ele gritou: ‘Vai pra Cuba, sua velha petista!’" Minha amiga saiu do grupo do WhatsApp e não vai mais a nenhum evento da família. "Como conviver com um fascista dentro da minha própria casa?", ela me perguntou. Na mesma hora me lembrei de Alice, uma menina de 11 anos que, com seu delicioso sotaque francês, me disse: "Mirian, você é muito gentil!". Alice é filha da minha querida aluna Daniela, que mora na França há mais de 20 anos. Alice não diz que você é bonita ou feia, simpática ou antipática, burra ou inteligente. Sua classificação é muito mais simples: você é gentil ou você não é gentil. Alice me ensinou que, em tempos de cólera, a gentileza é uma forma de resistência. E que ser gentil não significa aceitar o autoritarismo, tolerar ameaças ou deixar de combater ideias antidemocráticas. Meu voto me pertence. No domingo, dia 25 de outubro, vou sair de casa às 7h para acompanhar a zerésima e ser a primeira a votar com muito amor, muita coragem e muita gentileza. Quero sentir, mais uma vez, a mesma emoção de votar pela democracia, pela educação e pelo futuro das crianças de hoje, que serão os velhos de amanhã. Você também acha que a gentileza é uma forma de resistência? Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A defesa da democracia come�a dentro das nossas casas
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