Em 2013, no auge da ascensão da classe C, Anitta lançou "Show das Poderosas" e virou o rosto dessa subida: a menina de Honório Gurgel que fez da estética da periferia a maior marca pop do país, comprada também pelas classes A e B. Em 2025, a moto mais vendida do Brasil foi a CG 160 do entregador que roda 12 horas por dia. Entre a poderosa e o motoboy está a história que Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, conta em "Brasil da Maioria: 25 anos de Classe C" (Record, 2026). Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Meirelles define o grupo como as famílias com renda mensal per capita entre R$ 610 e R$ 2.150 —mais de 107 milhões de brasileiros, 53% da população, com renda familiar média de R$ 3.500. Não é a classe média da imaginação do leitor. Como resume Meirelles, tem mais dinheiro que a classe D, mas não recebe apoio do Estado e não tem a poupança das classes A e B. A ascensão dessa classe nos anos 2000 costuma ser contada como história de crédito e transferência de renda. Foi também uma história de redes. O Luz para Todos levou eletricidade a 17,5 milhões de brasileiros. O celular chegou antes do esgoto. E o avião virou projeto de família: o mercado doméstico saiu de cerca de 30 milhões de passageiros em 2003 para perto de 96 milhões em 2014. A infraestrutura foi vivida como inclusão, e as concessões daquela década nasceram com legitimidade social. Mas os contratos indexam tarifas à inflação, não à renda de quem paga. Quando a renda da classe C estagnou, a tarifa seguiu: de 2010 a 2024, a energia elétrica subiu 177%, contra 122% do IPCA. A aviação conta a mesma história por outro ângulo: levou 11 anos para ir de 30 milhões a 96 milhões de passageiros, e outros 11 para ultrapassar os 100 milhões, em 2025. A curva do setor aéreo é a curva da classe C. O caso emblemático é o ônibus. De 2013 a 2025, o transporte coletivo urbano perdeu 44,9% dos passageiros pagantes. Até 2013, a conta foi paga pela tarifa, que subiu cerca de 60% acima da inflação desde 1995. Depois dos protestos daquele ano, a passagem ficou contida –em 16 capitais subiu abaixo do IPCA na década seguinte –e o ajuste migrou para a qualidade e para o subsídio: a idade média da frota foi de 4,5 anos em 2013 para 6,4 em 2023; em São Paulo, sem subsídio a passagem custaria R$ 10,30, não R$ 5,30. Quem saiu do ônibus não parou de se mover: a frota de motos foi de 18 milhões para 32 milhões de 2013 a 2023, e 2025 teve recorde de 2,2 milhões de emplacamentos. A moto não é só transporte; é ferramenta de trabalho de uma classe que deixou de ver no diploma universitário e na carteira assinada o símbolo da ascensão e migrou para os bicos, os aplicativos e o microempreendedorismo. Não há dinheiro público para subsidiar todos os serviços nem solução geral para a distância entre o que o serviço custa e o que a classe C pode pagar: ela se fecha setor a setor, fonte a fonte. Três decisões. A outorga: o leilão da Cedae rendeu R$ 22,7 bilhões em 2021, 134% acima do mínimo; o governador do Rio chamou o dinheiro de "livre", recusou abater a dívida com a União e o gastou em custeio no ano eleitoral de 2022. Esses R$ 22,7 bilhões voltam, com juros, na conta de água dos 35 anos seguintes. A conta de luz: os subsídios embutidos nela chegaram a R$ 49,2 bilhões em 2025; em 2024, R$ 11,6 bilhões pagaram a geração distribuída —painéis no telhado de quem tem telhado, custeados por quem não tem. Redirecionar esse valor para um desconto que alcance a classe C financiaria a maior tarifa social da história do setor sem tocar no orçamento. A via pública: São Paulo cobra dos aplicativos um preço público por km rodado desde 2016 —hoje R$ 0,12, recolhido até 2022 por autodeclaração das empresas—, sem vínculo com o transporte coletivo. Estender a cobrança a todo automóvel, escalonada por horário e congestionamento, como Londres, Estocolmo e Singapura, e vincular a receita ao ônibus é a fonte que a Lei 12.587/2012 já autoriza ao separar a tarifa do usuário da remuneração do operador. Desde 1994, o "Rap da Felicidade" toca em toda festa do país, de qualquer classe: o pedido de ser feliz e andar em paz no lugar onde se nasceu. Trinta anos depois, a classe C acrescentou uma linha ao pedido: que a conta caiba no bolso. Do outro lado do balcão não há uma curva de demanda; há 107 milhões de pessoas cuja renda parou em 2014, enquanto a tarifa seguiu a projeção do leilão. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A curva de demanda tem nome
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