A culpa � da Janja?

A culpa � da Janja?

A narrativa que a elite política tenta vender hoje em Brasília —com o endosso velado de caciques da própria esquerda —é a de uma mulher maquiavélica que mantém um presidente indefeso refém no Palácio da Alvorada. A recente declaração da ex-senadora Kátia Abreu de que Janja ocupa mais espaço do que Geraldo Alckmin apenas deu voz ao murmúrio covarde que ecoa nos corredores do poder desde a posse de Lula. É a mais velha e preguiçosa misoginia: fingir que temos uma primeira-dama manipuladora para justificar a inércia de um governante supostamente manipulável. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha A ironia da situação é que Janja tem um histórico de debitar na conta do machismo qualquer crítica que recebe. Ela já usou o sexismo como escudo para se blindar de questionamentos justíssimos sobre seus gastos em viagens, seus deslizes de comunicação, seu deslumbramento com a corte artística e suas marolas desnecessárias. Na esmagadora maioria das vezes, ela estava errada. Mas como até um relógio quebrado acerta a hora, desta vez a primeira-dama teria razão se resolvesse apontar o dedo para o preconceito de gênero vindo da própria esquerda: o que estão fazendo agora é misoginia em estado puro. Comprar a tese de que Janja é a responsável pela paralisia do governo é, antes de tudo, uma tentativa patética de infantilizar Luiz Inácio Lula da Silva. Tratam o maior animal político da história recente do país como um velhinho hipnotizado, um estagiário incapaz de gerir a própria agenda. Lula é um adulto no exercício de seu terceiro mandato. Se ele deixou de articular politicamente, se o gabinete está com a porta trancada para aliados, a chave foi virada por ele, e por mais ninguém. A letargia do governo é uma escolha presidencial, não um feitiço conjugal. A verdade é que a classe política, anestesiada pela própria ineficiência, adora um bode expiatório. É infinitamente mais fácil culpar a personalidade exuberante da mulher do presidente do que olhar no espelho e listar os reais culpados pelo apagão governamental. E a lista é vasta. Onde está a responsabilidade da articulação oficial, comandada por ministros palacianos que não conseguem negociar sequer a entrega de uma pizza no Congresso? Onde entra a culpa de uma máquina de comunicação engessada, que continua falando sozinha enquanto a oposição domina as redes? E, acima de tudo, como justificar o fato de que o governo ainda faz campanha para um eleitor que não sabe quem é, nem o que deseja, teimando em ignorar as demandas reais da sociedade? Passou a circular agora uma pesquisa feita em 2015 pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, "para entender a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo". Está tudo lá. Pobre que não gosta de ser tratado como pobre, o desejo de empreender, de viver uma realidade diferente da CLT, os valores familiares, a igreja como porto seguro. Então nem dá para dizer que o partido está tendo um choque de realidade. Foi culpa da Janja? Ela nem existia no cenário político. Portanto, terceirizar para a primeira-dama a culpa do isolamento de Lula e da dificuldade do partido em conquistar votos na eleição é apenas o sintoma mais cínico de um grupo que se recusa a assumir os próprios erros. Janja pode errar o tom, a hora e o lugar, mas o roteiro do fracasso da articulação política foi escrito e dirigido por quem realmente manda em Brasília: os homens. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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