A cruzada contra livros nos EUA

A cruzada contra livros nos EUA

A chamada guerra cultural, que se espraia por democracias em âmbito global, tem impactado a educação por meio da interdição de conteúdos e do debate de ideias. No Brasil, pesquisadores e professores lançaram, em maio, um manifesto com mais de 1.500 assinaturas em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica nas universidades. Nos EUA, o movimento de censura a livros tem escalado de forma preocupante. Em 2025, 6.588 livros foram censurados em todos os tipos de biblioteca do país, ante média anual de 70 obras entre 2001 e 2020, segundo a Associação das Bibliotecas dos Estados Unidos. Desse total, 5.897 volumes estavam em bibliotecas escolares. Tal salto se deve ao surgimento de uma espécie de indústria da contestação de livros que estimulou alguns estados a criarem leis que facilitam o banimento. Antes de 2020, a maioria das contestações partia de pais que queriam restringir alguma obra. Hoje, organizações demandam censura de listas com dezenas e até centenas delas —geralmente sobre raça, gênero e sexualidade. Em 2025, 92% das ações partiram de grupos de pressão ou de autoridades por eles influenciadas, ante 25% em 2020. Em 2023, uma lei da Flórida determinou que livros acusados de conter pornografia fossem retirados de circulação enquanto a contestação estivesse sendo examinada; Iowa obrigou distritos e escolas a realizarem o escrutínio de livros obscenos e criou mecanismos para registrar aqueles que foram banidos. Utah e Texas criaram normas semelhantes. Esse movimento se baseia na ideia de que os pais devem ter o direito de controlar a educação dos filhos, mas resta claro que a censura a granel interfere no direito dos outros pais e no acesso ao conhecimento e à cultura literária de todos os alunos. Em 2023, o governo de Joe Biden lançou ações para apurar a proibição de livros nas escolas públicas e dissuadir as instituições de restringir o acesso aos controversos. Mas, no início da gestão de Donald Trump, o Departamento de Educação anunciou que não investigaria mais essas medidas e defendeu que os conteúdos banidos eram "inadequados" ou "obscenos". No Congresso americano, tramita um projeto de lei que visa retirar o financiamento das escolas que "fornecerem ou promoverem livros ou outros materiais que incluam conteúdo de caráter sexual para menores de 18 anos". O país conhecido como a terra da liberdade vai, assim, minando valores que estão na base de sua formação histórica. editoriais@grupofolha.com.br

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