A conversa sobre futebol bateu um bol�o

A conversa sobre futebol bateu um bol�o

Não que a qualidade do futebol exibido em 104 jogos tenha sido baixa, muito pelo contrário, mas a Copa de 2026 gerou tantas ou mais conversas sobre as transmissões esportivas do que sobre as partidas em si. Mesmo antes de a seleção brasileira ser eliminada, a discussão sobre televisão já estava dominando a pauta nas redes sociais. "Vivemos no Brasil a primeira Copa na qual rolaram mais opiniões apaixonadas sobre transmissões, narradores e 'jornalismo' do que sobre os jogos de futebol", observou Gian Oddi, excelente comentarista da ESPN. Com a Globo como coadjuvante, sem explicar de forma transparente o que aconteceu, e com o SBT dando palco para a despedida de Galvão Bueno, o foco se voltou para um canal com aparência de novo. Promovendo uma virada de chave, a CazeTV deitou e rolou. Uma nova geração de narradores e comentaristas teve a oportunidade de aparecer para um público maior. A gritaria desenfreada, o tom de conversa de botequim e a reverência acrítica aos tais "protagonistas" da Copa deixaram de ser um modelo alternativo e ocuparam o palco principal do espetáculo. Quase todo mundo tirou uma casquinha da Copa das Bets, mas a desfaçatez com que o jovem canal promoveu a jogatina online, inclusive com seus narradores e comentaristas, ajudou a dar uma outra dimensão ao negócio bilionário. Ainda durante a Copa o governo federal anunciou restrições à publicidade de bets. Baixada a poeira da festa incessante que a CazéTV fez sobre o próprio sucesso, já há mais clareza sobre o que ocorreu no campo da transmissão esportiva da Copa no Brasil. O grande campeão foi o YouTube, uma plataforma de publicação de vídeos e transmissões ao vivo, que chegou a conectar 24,2 milhões de aparelhos simultaneamente durante a partida entre Espanha e França. Como observou Samuel Possebon, diretor do site Tela Viva, especializado em telecomunicações, o YouTube foi um meio hegemônico durante a Copa. "A plataforma se tornou um canal de televisão sem ser, do ponto de vista institucional, regulatório e político", disse em entrevista ao jornalista Bob Fernandes. "É uma emissora de televisão que não segue as regras do mercado de televisão", diz ele. O tipo de negócio com o YouTube que a Fifa aprovou no Brasil, vendendo separadamente direitos no digital e na TV aberta, não ocorreu nos EUA, onde Fox e Telemundo/Peacock garantiram exclusividade em todas as mídias. As transmissões também foram assunto nos EUA, não pelo barulho, mas pelo excesso de sobriedade. Os narradores da Fox chamaram a atenção por não gritar ou mesmo silenciar nos momentos de clímax, captando apenas o som vindo do público nos estádios. "Não falar permite que o espectador pense e sinta o que quiser e vivencie a experiência da maneira que desejar. Se eu falar o tempo todo, atrapalho e levo o espectador pelo meu caminho, o que ele pode não querer", disse Joe Buck ao New York Times. Uma nota de rodapé, mas não menos importante. Dois programas ajudaram a atenuar o baixo astral com a seleção brasileira. Veteranos na arte de fazer picadinho de debates esportivos, Daniel Furlan e Caito Mainier não decepcionaram nesta temporada do "Falha de Cobertura". Já Marcelo Adnet, Rafael Saraiva e grande elenco do "Aquele Campeonato", não tiveram dó de lembrar dos excessos ridículos da CazéTV e do tombo sofrido pela Globo. Só posso agradecer a quem me fez rir nesta Copa. Até a próxima! Copa 2026 A newsletter da Folha com o que você precisa saber sobre o Mundial LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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