A conta da IA est� chegando

A conta da IA est� chegando

A corrida da inteligência artificial entrou em nova fase. Durante dois anos, investidores premiaram quem anunciava mais investimento. Agora, querem saber quem consegue pagar por ele. O caso da Meta ilustrou bem essa mudança. No terceiro trimestre, a receita cresceu 26%, acima do esperado. Ainda assim, o fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 2,1 bilhões, a previsão de investimento anual subiu para até US$ 145 bilhões, e a companhia lançou ações sem direito a voto para financiar a expansão. A ação caiu quase 7% em um dia, e o risco de crédito atingiu nível recorde. Nas empresas menores, o sinal é mais forte. A CoreWeave, que aluga capacidade de processamento, acumula dívida de cerca de US$ 50 bilhões, com títulos rendendo acima de 16% ao ano. Três ofertas de ações de data centers foram suspensas em outubro, e o SoftBank, que é um dos grandes estruturadores dessa infraestrutura, perdeu metade do valor de mercado desde junho. A Nvidia admite que a demanda é enorme, mas o capital ficou escasso. Há risco considerável de o grande IPO da Anthropic (criadora do Claude) não sair. Há quem veja exagero. Corretoras elevaram o preço-alvo da Meta, e analistas apontam que a CoreWeave não está perto da insolvência. Mas acertar o futuro não basta quando o investimento é financiado com dívida cara, e o retorno ainda não chegou. Recorde-se que empresas de ferrovias e de internet, por exemplo, faliram antes de suas tecnologias proporcionarem lucro. Foi assim com as ferrovias britânicas nos anos 1840 e com a Global Crossing, que quebrou em 2002 com rede de fibra ótica ociosa. Um elemento-chave desta discussão é o momento de juros mais altos no mundo. Projetos que dependem de capital barato e têm prazos longos de retorno são os primeiros a sofrer quando o dinheiro encarece. O Brasil não está fora desse jogo. O país aprovou o Redata, regime de benefícios tributários para atrair data centers, e a estratégia pressupõe que as empresas globais continuarão capazes de financiar a expansão. Se o crédito secar, projetos podem ser adiados, enquanto benefícios e obras de energia e transmissão já terão sido contratados. Não se trata de abandonar a política, mas de desenhá-la com prudência. Incentivos deveriam ser liberados conforme o investimento. Como em toda revolução tecnológica, quem financia a construção nem sempre é quem colhe os frutos. O Brasil deveria garantir que não seja o contribuinte a carregar esse risco. editoriais@grupofolha.com.br

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