"Para mim, não muda nada votar. Na minha vida, tanto faz quem ganha e quem perde". Talvez por eu ser uma pessoa com deficiência, que sempre está à mercê da atitude de alguém, seja para ajudar a vencer uma calçada em frangalhos, seja para se indignar a meu lado por mais uma exclusão, a indiferença inquieta, corrói um pouco a esperança. Na votação do último domingo (4), 33,4 milhões de pessoas, o equivalente a 21,08% do eleitorado, se abstiveram de ir à urnas, optou por não se manifestar, mesmo diante de uma troca de chumbo das mais intensas que o país já teve, mesmo com valores tão antagônicos sendo colocados em escrutínio público, mesmo quando não escolher também interfere na vida de milhões de pessoas. Claro que é preciso considerar a chuvarada em alguns locais, os impossibilitados por doenças, os bloqueados por razões várias. Mesmo assim, ainda haveria contingente expressivo para eleger ou deseleger um caminhão de gente. Mas o descompromisso com o destino político brasileiro é apenas um ponto de partida para o que acontece socialmente, em diversos setores. Na semana passada, o levantamento "Radar da Inclusão", que ouviu 2.526 pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes em sua terceira edição, mostrou que 84% dos entrevistados que estavam empregados não ocupavam cargo de liderança nas empresas. Entre aqueles que estavam havia mais de três anos na mesma companhia, 44% nunca tinham sido promovidos. Mesmo entre os profissionais com ensino superior ou mais, eram 42%. O número robusto dá outra dimensão ao "não estou nem aí". A legislação obriga empresas a cumprir cotas e ajudou a colocar pessoas com deficiência para dentro. Mas inclusão não pode terminar na catraca. Em muitos casos, o funcionário entra e fica estacionado num nível inferior, sem perspectiva real de desenvolvimento. Outro ponto grave detectado pelo relatório é que 76% das pessoas com deficiência ou neurodivergentes na força de trabalho afirmam já ter vivido ao menos uma situação de capacitismo. E, entre aqueles que eram funcionários de uma empresa quando sofreram a discriminação, 64% não relataram o episódio ao empregador. Aqui, embora entre o elemento "medo de perder o emprego", aprofunda-se mais o "tô nem aí". Se existem tantos casos, a prática corre solta e naturalizada. Se há tanto medo é que não se considerou criar um ambiente seguro para que possa falar de discriminação. Enquanto escrevia este texto, recebi uma mensagem da mãe de um amigo meu, o Gabi, que tem uma condição física bem desafiadora com movimentos extremamente limitados em todo o corpo e a fala comprometida. Ele tem o intelecto preservado e usa comunicação alternativa por meio de dispositivos eletrônicos."Oi, Jairo! Me ajuda aqui. O Gabi terá 17 anos nas próximas eleições e está preocupado se conseguirá votar. O que você acha? Ele quer muito poder votar". Dei risada sozinho pela coincidência. Adoro esses tais movimentos do universo. Sim, o Gabi pode e deve votar. Um dia, quem sabe, eu até me sinta representado por ele como candidato. Uma coisa ele já provou: não está indiferente aos rumos do país. E sabe que, mesmo quando tanta gente acha que um voto não muda nada, o direito de manifestar o seu ainda vale uma batalha. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A bancada da indiferen�a e um voto que vale ouro
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