A ascens�o pol�tica de pautas antifeministas � uma amea�a �s mulheres? N�O

A ascens�o pol�tica de pautas antifeministas � uma amea�a �s mulheres? N�O

A ascensão política de pautas antifeministas não significa, por si só, uma derrota das mulheres ou do feminismo. Ela integra uma disputa política mais ampla, na qual também cresce a presença de mulheres e aliados comprometidos com a igualdade de gênero, os direitos sexuais e reprodutivos e o enfrentamento às desigualdades. Enquanto algumas lideranças fazem do antifeminismo uma plataforma política, agendas feministas também ganham novas vozes e espaços. A política não se move de forma linear. Avanços sociais produzem reações e novos conflitos. A ampliação da presença das mulheres e a conquista de direitos abriram novos espaços de representação.O antifeminismo contemporâneo é parte desse processo: responde às transformações produzidas pelo feminismo, mas em um mundo já modificado por essas conquistas. As eleições de 2026 ajudam a visualizar esse movimento. De um lado, Eduarda Campopiano (PL), aos 23 anos, foi eleita deputada estadual por São Paulo depois de construir sua projeção nas redes com um discurso crítico ao feminismo, ao aborto e às políticas de gênero. De outro, Ana Elisa (PT) chega à Câmara por Minas Gerais, também como expressão de uma renovação geracional vinculada a agendas progressistas e à ampliação de direitos. São trajetórias jovens, ligadas a projetos distintos, que mostram que a disputa geracional não pertence apenas à direita. Por isso, a ascensão de lideranças antifeministas não deve ser lida como derrota do feminismo. Ela mostra o quanto gênero, autonomia, família, violência, cuidado e direitos reprodutivos passaram a ocupar o centro da política. O antifeminismo contemporâneo já não propõe simplesmente o retorno das mulheres ao espaço doméstico. Reivindica sua presença nas redes, universidades, partidos e Parlamentos, enquanto redefine o significado de emancipação feminina. É possível defender mulheres "fortes" enquanto se combate sua autonomia reprodutiva; celebrar a participação feminina no Parlamento enquanto se questionam políticas de gênero; impulsionar projetos para mulheres empreendedoras enquanto se vota contra medidas de igualdade salarial; falar em proteção da vida quando se trata do feto, enquanto direitos sexuais e reprodutivos são colocados em disputa. Quando grupos antifeministas afirmam que políticas destinadas às mulheres produziram privilégios, não abandonam a linguagem dos direitos: disputam seu significado. Direitos criados para enfrentar desigualdades podem ser apresentados como excessos, e sua retirada como restauração da justiça. Isso não significa que essas disputas sejam inofensivas. Projetos antifeministas podem produzir restrições concretas, sobretudo no campo reprodutivo, da educação e do enfrentamento à violência. Mas reconhecer esses riscos é diferente de interpretar sua ascensão como sinal de enfraquecimento inevitável do feminismo. O avanço conservador sobre gênero, família e sexualidade recoloca para o feminismo a necessidade de disputar esse terreno. Não basta defender o que já foi conquistado. É preciso exercitar a imaginação política e voltar a disputar aquilo que ainda pode ser possível. Direitos sexuais e reprodutivos, enfrentamento à violência, igualdade salarial, autonomia econômica, divisão do trabalho de cuidado, proteção social e liberdade sexual podem compor um projeto de futuro. A ascensão de jovens mulheres antifeministas deve servir menos para anunciar uma derrota do feminismo do que para reconhecer a disputa em curso. O futuro não pertence de antemão nem ao avanço conservador nem à resistência feminista: está sendo disputado agora. O desafio do feminismo é não apenas proteger direitos conquistados, mas apresentar às novas gerações uma ideia de sociedade capaz de mobilizar. A disputa não é apenas sobre quem pode falar em nome das mulheres, mas sobre quais demandas conseguem ganhar legitimidade, produzir alianças e disputar os rumos da política brasileira. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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